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Lição 7: A Obra do Filho

Lição 07 A Obra do Filho
TEXTO ÁUREO

Pelo que também Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que é sobre todo o nome.(Fp 2.9).

VERDADE PRÁTICA

A humilhação voluntária de Cristo, sua obra redentora e sua exaltação gloriosa revelam que somente Ele é digno de toda adoração e obediência.

 

LEITURA BÍBLICA EM CLASSE

Filipenses 2.5-11; Hebreus 9.24-28.

Filipenses 2

5 — De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus,

6 — que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus.

7 — Mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens;

8 — e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte e morte de cruz.

9 — Pelo que também Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que é sobre todo o nome,

10 — para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra,

11 — e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.

Hebreus 9

24 — Porque Cristo não entrou num santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém no mesmo céu, para agora comparecer, por nós, perante a face de Deus;

25 — nem também para a si mesmo se oferecer muitas vezes, como o sumo sacerdote cada ano entra no Santuário com sangue alheio.

26 — Doutra maneira, necessário lhe fora padecer muitas vezes desde a fundação do mundo; mas, agora, na consumação dos séculos, uma vez se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo.

27 — E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo, depois disso, o juízo,

28 — assim também Cristo, oferecendo-se uma vez, para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o esperam para a salvação.

 

INTRODUÇÃO

Jesus Cristo é o Filho eterno de Deus, que assumiu a forma humana, viveu uma vida sem pecado, morreu em nosso lugar e ressuscitou vitoriosamente. Sua missão abrange não apenas o perdão dos pecados, mas a revelação do caráter do Pai e a restauração de toda a criação. Esta lição visa apresentar a profundidade da obra do Filho em três dimensões: sua humilhação, sua redenção e sua exaltação.

Palavra-Chave:

OBRA

I. A HUMILHAÇÃO VOLUNTÁRIA DO FILHO

1. A submissão de Cristo.

Paulo exorta a igreja de Filipos à unidade e à humildade (Fp 2.1-4). O apóstolo adverte aqueles irmãos a terem a mente de Cristo: “De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Fp 2.5). O termo grego traduzido como “sentimento” é phroneō, que também pode significar “modo de pensar” e “disposição mental”. Dessa forma, os crentes devem assumir o mesmo modo de pensar e viver que foi demonstrado por Cristo (1Jo 2.6). Refere-se a uma consciência moldada pela humildade, amor e obediência (Jo 13.15). Imitar a mente de Cristo significa renunciar ao egoísmo, buscar o bem do próximo e viver para a glória de Deus (Rm 12.2). Como cristãos, somos chamados não apenas a crer em Cristo, mas a pensar e agir como Ele (Mt 11.29).

A submissão de Cristo revela de forma prática e profunda o padrão divino de humildade que deve orientar a vida cristã.

Ao exortar a igreja de Filipos à unidade, Paulo direciona os crentes a olharem para o exemplo de Jesus, mostrando que a verdadeira comunhão nasce de uma disposição interior moldada pelo amor e pela renúncia. Ter o mesmo sentimento que houve em Cristo não se limita a uma admiração teórica por Sua pessoa, mas exige a adoção de um modo de pensar que rejeita o orgulho e coloca os interesses do próximo acima dos próprios. Essa atitude confronta diretamente a inclinação natural do ser humano ao egoísmo e à autopromoção.

Cristo demonstrou essa submissão de maneira voluntária e consciente. Embora fosse Senhor, Ele escolheu servir, ensinando que a grandeza no Reino de Deus se manifesta por meio da humildade. O próprio Jesus declarou que não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida em resgate de muitos (Mc 10.45). Assim, Sua submissão não expressa fraqueza, mas obediência perfeita à vontade do Pai. Ele viveu em total dependência de Deus, afirmando que sempre fazia aquilo que agradava ao Pai (Jo 8.29), revelando um coração inteiramente alinhado com os propósitos divinos.

Além disso, a submissão de Cristo se reflete em Sua disposição para obedecer, mesmo quando isso envolvia sofrimento.

Ele se colocou sob a vontade do Pai em oração, demonstrando plena confiança nos desígnios divinos, ao declarar que não buscava fazer a Sua própria vontade, mas a vontade daquele que O enviou (Jo 6.38). Essa postura ensina que a verdadeira obediência nasce de um relacionamento íntimo com Deus e de uma fé que se submete, mesmo quando o caminho é difícil. Por isso, a vida de Cristo se torna o modelo máximo para todo crente que deseja viver de maneira agradável ao Senhor.

Imitar a mente de Cristo significa permitir que o Espírito Santo transforme o interior do crente, ajustando seus pensamentos, atitudes e escolhas. Essa transformação conduz a uma vida marcada pela humildade, pelo serviço e pela busca sincera da glória de Deus.

2. O esvaziamento de sua glória.

O apóstolo recorda que Jesus, “sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus” (Fp 2.6). Sendo Ele igualmente Deus, compartilhando da mesma natureza do Pai (Jo 1.1) — preferiu privar-se de seus direitos — não da sua divindade. Trata-se de um contraste com o primeiro Adão, que almejou ser “como Deus” (Gn 3.5), enquanto Cristo, o segundo Adão, sendo Deus, preocupou-se com o bem-estar dos outros (Fp 2.4b). Essa realidade é confirmada quando Jesus “aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo” (Fp 2.7a), isto é, esvaziou-se voluntariamente (gr. kénosis), assumindo a natureza humana na forma de servo (Fp 2.7b; Hb 4.15). Isso não significa a perda de sua divindade, mas a renúncia da glória que Ele possuía na eternidade com o Pai (Jo 17.5).

O esvaziamento da glória de Cristo revela a profundidade de Sua humildade e o caráter sacrificial de Sua missão redentora.

Ao afirmar que Jesus, sendo em forma de Deus, não considerou como usurpação ser igual a Deus, o apóstolo Paulo declara de maneira inequívoca a plena divindade do Filho. Ele não precisava conquistar igualdade com o Pai, pois já a possuía por natureza. No entanto, diferentemente do primeiro Adão, que desejou elevar-se indevidamente, Cristo escolheu descer voluntariamente. Esse contraste evidencia que o plano de Deus para a redenção não se constrói por meio da exaltação humana, mas pela obediência e pelo serviço.

Esse esvaziamento não se refere à perda de atributos divinos, pois Cristo jamais deixou de ser Deus. Antes, trata-se de uma renúncia consciente aos privilégios e à glória que Lhe pertenciam desde a eternidade. Ele abriu mão de Sua posição de honra visível para assumir a condição humana em sua forma mais simples e dependente. O apóstolo Paulo reforça essa verdade ao afirmar que, sendo rico, por amor se fez pobre, para que, por Sua pobreza, fôssemos enriquecidos (2Co 8.9). Assim, o esvaziamento de Cristo manifesta o amor divino em ação, não como discurso, mas como entrega real.

Ao tomar a forma de servo, Jesus identificou-se plenamente com a humanidade. Ele experimentou limitações humanas, enfrentou tentações e conviveu com o sofrimento, sem jamais pecar.

Essa identificação confirma que Sua obediência foi vivida em condições reais, não aparentes. O autor de Hebreus declara que Cristo se tornou semelhante aos irmãos em tudo, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote (Hb 2.17). Dessa forma, o esvaziamento não diminuiu Sua glória, mas revelou o modo como Deus age: com graça, humildade e proximidade.

Portanto, o esvaziamento da glória de Cristo aponta para a renúncia voluntária em favor da salvação do homem. Ele deixou a glória celestial para cumprir a vontade do Pai e resgatar a humanidade caída. 

3. Obediência sacrificial até a cruz.

A obediência de Cristo foi plena, desde a encarnação até o Calvário: “na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2.8). Ele desceu à condição mais humilde e morreu como servo (2Co 8.9). Em obediência ao Pai e em favor dos pecadores, submeteu-se à humilhação da cruz (Hb 12.2). Revela a Escritura que o primeiro Adão trouxe condenação pelo pecado; e, Cristo, o segundo Adão, trouxe justiça por meio de sua perfeita obediência (Rm 5.19). Essa verdade ratifica que a Obra Redentora do Filho está fundamentada na obediência completa de Cristo ao Pai (Jo 6.38). A nossa salvação é resultado dessa obediência, e não de nossos méritos (Ef 2.8,9). Assim como Cristo, devemos obedecer à vontade do Pai (Rm 12.1).

A obediência sacrificial de Cristo revela o ponto mais profundo de Sua humilhação e, ao mesmo tempo, a maior expressão do amor de Deus pela humanidade.

Ao assumir a forma humana, Jesus não apenas se identificou com o homem, mas também escolheu um caminho de total submissão à vontade do Pai. Essa obediência não foi parcial nem circunstancial, pois se estendeu até as últimas consequências, culminando na morte de cruz. O Filho não foi levado ao Calvário por força humana ou por derrota, mas caminhou de forma consciente e voluntária para cumprir o plano redentor estabelecido antes da fundação do mundo.

A cruz, símbolo de vergonha e maldição, tornou-se o cenário máximo dessa obediência. A Escritura declara que Cristo suportou a cruz por causa da alegria que Lhe estava proposta, revelando que Seu sofrimento tinha um propósito eterno. Ele se entregou sem resistência, como o Cordeiro de Deus, cumprindo aquilo que fora anunciado pelos profetas. O profeta Isaías já havia declarado que o Servo do Senhor seria obediente até a morte, levando sobre Si as iniquidades de muitos (Is 53.5-7). Assim, a obediência de Cristo não foi apenas um ato isolado, mas o cumprimento fiel de toda a vontade do Pai em favor dos pecadores.

Essa obediência perfeita contrasta diretamente com a desobediência do primeiro homem.

Enquanto Adão trouxe culpa e separação, Cristo, por meio de Sua fidelidade absoluta, trouxe justificação e reconciliação com Deus. Paulo afirma que Cristo se fez maldição por nós, para nos resgatar da condenação da Lei (Gl 3.13), mostrando que Sua morte não foi um acidente da história, mas um sacrifício substitutivo. Dessa forma, a salvação não se apoia em obras humanas, mas na obediência do Filho que satisfez plenamente a justiça divina.

II. A OBRA REDENTORA DO FILHO

1. A ineficácia do sacerdócio levítico.

O sumo sacerdote entrava no Santo dos Santos uma vez por ano, no Dia da Expiação (Yom Kippur), levando sangue alheio — o sangue de animais — para fazer propiciação por seus próprios pecados e pelos do povo (Lv 16.11-15). Esse sacrifício era repetido anualmente porque não era suficiente para remover o pecado (Hb 9.25). O sumo sacerdote terreno era uma figura (tipo) de Cristo, que é o real e eterno Sumo Sacerdote (Hb 2.17). O santuário terreno era uma sombra (Hb 8.5), mas Cristo entrou no céu mesmo, para interceder por nós diante do Pai (Hb 8.1,2). A entrada única de Cristo no santuário com seu próprio sangue nos assegura uma eterna redenção (Hb 9.12). Por ser imperfeito, o sacerdócio levítico foi substituído por um superior, o sacerdócio de Cristo (Hb 7.23,24).

A ineficácia do sacerdócio levítico se manifesta claramente no caráter repetitivo e limitado de seus sacrifícios.

O sumo sacerdote, homem sujeito às mesmas fraquezas do povo, precisava primeiro oferecer sacrifício por si mesmo antes de interceder pelos pecados da nação. Essa necessidade revelava que o sistema sacerdotal da antiga aliança não possuía poder para tratar o pecado de forma definitiva. A repetição anual do sacrifício no Dia da Expiação evidenciava que a culpa não era plenamente removida, mas apenas coberta de maneira provisória. Assim, a própria estrutura do culto levítico apontava para algo maior que ainda estava por vir.

Além disso, o santuário terreno e os rituais ali realizados tinham caráter simbólico e pedagógico. Eles ensinavam a gravidade do pecado e a necessidade de expiação, mas não produziam transformação interior. O autor da epístola aos Hebreus afirma que a Lei possuía apenas a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas (Hb 10.1), demonstrando que o sistema levítico preparava o caminho para a revelação de uma obra superior. Dessa forma, o sacerdócio antigo não falhou em seu propósito, mas cumpriu seu papel ao apontar para a necessidade de um mediador perfeito e definitivo.

Cristo surge, então, como o cumprimento pleno daquilo que o sacerdócio levítico apenas prefigurava. Diferente dos sacerdotes terrenos, Ele não ofereceu sangue de animais, mas a Si mesmo, em um sacrifício único e suficiente.

Sua entrada no santuário celestial não se repete, pois Sua obra alcançou eficácia eterna. Ao ressuscitar e assentar-se à direita do Pai, Cristo passou a exercer um sacerdócio permanente, que não se interrompe nem se transmite a outros. Essa realidade assegura aos crentes uma redenção completa e uma intercessão contínua diante de Deus.

Por isso, a substituição do sacerdócio levítico pelo sacerdócio de Cristo revela a superioridade da nova aliança. O que antes era provisório tornou-se definitivo, e o que era sombra deu lugar à realidade. A confiança do povo de Deus já não repousa em rituais repetidos, mas na obra consumada do Filho. Em Cristo, o acesso a Deus foi plenamente garantido, e a salvação não depende mais de sacrifícios humanos, mas da eficácia eterna do Sumo Sacerdote perfeito.

2. O Sacrifício único e suficiente.

Na Antiga Aliança, ofereciam-se sacrifícios continuamente pelo pecado por causa da ineficácia dessas ofertas (Hb 9.25; 10.1-4). Diferente do sistema levítico, a morte de Jesus foi definitiva, completa e eficaz: “assim também Cristo, oferecendo-se uma vez, para tirar os pecados de muitos” (Hb 9.28a). A expressão “uma vez” (gr. hápax) indica que não há necessidade de repetição: o que Ele fez é perfeito e eterno (Hb 10.10). A salvação não é por causa dos méritos ou rituais, mas ela é plena e gratuita, alcançada pela fé na obra consumada de Jesus (Jo 19.30). Cristo, ao morrer, rasgou o véu que separava o homem da presença de Deus (Mt 27.51). Não há outro meio de salvação, nenhuma outra oferta, nenhum outro nome (At 4.12). O Calvário é suficiente. Jesus é tudo!

O sacrifício único e suficiente de Cristo demonstra a superioridade absoluta da obra redentora realizada no Calvário.

O sistema sacrificial da Antiga Aliança, embora instituído por Deus, revelava sua limitação justamente pela necessidade de repetição constante. Os sacrifícios eram oferecidos continuamente porque não tinham poder para eliminar o pecado de forma definitiva, apenas apontavam para a necessidade de uma solução maior. Essa repetição constante mantinha viva a consciência da culpa e evidenciava que a redenção plena ainda não havia sido alcançada.

Em contraste, a morte de Jesus ocorreu uma única vez e alcançou eficácia eterna. Ao oferecer a Si mesmo, Cristo realizou aquilo que nenhum sacrifício anterior conseguiu cumprir. Seu sacrifício não apenas cobriu o pecado, mas o removeu, satisfazendo plenamente a justiça divina. O autor de Hebreus afirma que, por uma única oferta, Ele aperfeiçoou para sempre os que são santificados (Hb 10.14). Essa declaração reforça que a obra da cruz não carece de complemento humano, pois nela tudo foi plenamente consumado.

Além disso, o rasgar do véu no momento da morte de Cristo simboliza uma mudança radical no relacionamento entre Deus e o homem.

Aquilo que antes separava o pecador da presença divina foi removido, não por esforço humano, mas pela ação soberana de Deus mediante o sacrifício do Filho. Agora, o acesso ao Pai está aberto a todos os que creem, conforme declara a Escritura ao afirmar que temos ousadia para entrar no Santo dos Santos pelo sangue de Jesus (Hb 10.19). Essa nova realidade confirma que não há mais barreiras rituais, pois Cristo se tornou o mediador perfeito.

Portanto, o Calvário é suficiente e definitivo. Não existe outro sacrifício, outro caminho ou outra oferta que possa reconciliar o homem com Deus. A salvação é concedida unicamente pela fé na obra consumada de Cristo, sem acréscimos ou substituições. 

3. A substituição vicária.

A expressão “vicária” vem do latim vicarius, que significa “em lugar de outro”. A substituição vicária é inseparável da justiça divina (Rm 3.26). O pecado não pode ser ignorado, e precisa ser punido (Rm 5.21). Em virtude disso, Deus não poupou seu próprio Filho, mas o entregou para morrer em nosso lugar, assumindo sobre si a penalidade que nos era destinada (Rm 8.32). No sistema sacrificial da Lei, os animais oferecidos tipificavam essa substituição, mas não removiam o pecado (Hb 10.4). Em Cristo, o Cordeiro de Deus, a substituição é perfeita e definitiva: “na consumação dos séculos, uma vez se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo” (Hb 9.26b). Assim, em adoração devemos viver para Cristo que por nós morreu (2Co 5.15).

A substituição vicária expressa de maneira clara e profunda o equilíbrio perfeito entre a justiça e a graça de Deus.

O pecado, por sua própria natureza, exige punição, pois Deus é santo e não pode simplesmente ignorar a transgressão humana. A justiça divina requer que a culpa seja tratada de forma legítima, e é exatamente nesse ponto que a obra de Cristo se torna central. Em vez de executar o juízo sobre o pecador, Deus decidiu colocar sobre Seu próprio Filho a penalidade que era devida à humanidade, revelando, ao mesmo tempo, Sua justiça e Seu amor redentor.

Esse princípio já estava presente no sistema sacrificial da Antiga Aliança, no qual um inocente morria em lugar do culpado. Contudo, aqueles sacrifícios possuíam valor apenas simbólico e temporário. O sangue dos animais não tinha poder para remover o pecado, mas apontava para a necessidade de um sacrifício superior e definitivo. Assim, cada oferta apresentada no altar funcionava como uma sombra daquilo que Deus realizaria plenamente em Cristo, o verdadeiro Cordeiro que tira o pecado do mundo. Nele, a substituição deixou de ser figurada e passou a ser real e eficaz.

Em Cristo, a substituição vicária alcança sua plenitude. Ele, sendo sem pecado, assumiu voluntariamente a posição do pecador, carregando sobre Si a condenação que nos era destinada.

O profeta Isaías já havia anunciado que o castigo que nos traz a paz estava sobre Ele (Is 53.5), confirmando que a morte de Jesus não foi um ato injusto, mas o cumprimento do plano eterno de Deus. Dessa forma, a ira divina contra o pecado foi plenamente satisfeita, e o pecador arrependido recebeu perdão e reconciliação com Deus.

III. A EXALTAÇÃO GLORIOSA DO FILHO

1. Recebido à destra do Pai.

Após sua humilhação voluntária, o Filho foi entronizado nos céus com glória eterna: “pelo que também Deus o exaltou soberanamente” (Fp 2.9a). A exaltação de Cristo está ligada à sua obediência perfeita (Fp 2.8). O verbo “exaltou” (gr. hyperypsōsen) denota uma elevação acima de toda medida. Cristo não apenas venceu a morte, mas foi exaltado à posição suprema no Universo. Ocupou o lugar de honra à destra do Pai — símbolo de autoridade, glória e soberania (Hb 1.3). Estar assentado ali expressa o reconhecimento divino da obra completa do Filho (Jo 17.4,5). Cristo não apenas voltou para o céu, Ele assentou-se no trono (Ap 3.21). Sua exaltação garante nosso acesso à presença de Deus. Ele intercede por nós (Rm 8.34), e reina como Rei dos reis (Ap 19.16).

Após humilhar-se voluntariamente, assumindo a condição humana e submetendo-se até a morte, o Filho foi elevado à posição suprema no céu.

Essa exaltação não ocorreu como recompensa meramente honorífica, mas como reconhecimento da obra consumada que satisfez plenamente a justiça de Deus. Assim, o Cristo que desceu às maiores profundezas da humilhação agora ocupa o lugar mais elevado de honra e autoridade no Universo.

Estar à destra do Pai simboliza domínio absoluto, poder soberano e comunhão plena com Deus. Essa posição mostra que Cristo reina de forma ativa e contínua e governa sobre todas as coisas. O salmista já anunciava que o Messias se assentaria à direita de Deus até que Deus colocasse todos os seus inimigos por escabelo de seus pés (Sl 110.1), o que demonstra que a exaltação de Cristo integra o plano eterno do Pai. Ao sentar-se no trono, o Filho declara que cumpriu plenamente Sua missão redentora e que não há necessidade de outro sacrifício nem de outro mediador.

Além disso, a exaltação de Cristo garante ao crente segurança e esperança. Aquele que reina é o mesmo que morreu pelos pecadores e ressuscitou vitorioso.

Por isso, Sua posição à destra do Pai assegura uma intercessão contínua em favor dos salvos. Ele não apenas governa, mas também defende e sustenta os que foram alcançados por Sua graça. O acesso à presença de Deus agora é uma realidade permanente, pois o mediador perfeito permanece vivo e atuante.

2. Um nome acima de todo nome.

Cristo recebeu de Deus Pai “um nome que é sobre todo o nome” (Fp 2.9b). Na Bíblia, o nome carrega o sentido de caráter e autoridade. Dessa forma, dizer que Cristo recebeu um nome sobre-excelente, a Escritura afirma que nenhuma autoridade, seja visível ou invisível, se compara ao seu poder e posição (Ef 1.21a). Isso significa que Cristo foi exaltado acima de toda eminência do bem e do mal, e de todo título que se possa conferir nessa era e no porvir (Ef 1.21b). Não existe poder algum que seja maior e nem mesmo igual ao poder de Cristo (1Pe 3.22). Portanto, o nome de Jesus não é apenas um símbolo de fé, mas uma fonte real de autoridade espiritual. O Senhor delegou à Igreja o uso de seu nome, para curar, libertar, pregar e vencer as forças do mal (Mc 16.17,18).

A afirmação de que Cristo recebeu um nome acima de todo nome revela a dimensão máxima de Sua exaltação e autoridade no plano divino.

Na perspectiva bíblica, o nome não representa apenas uma designação, mas expressa a essência, o caráter e a posição daquele que o possui. Assim, quando Deus concede ao Filho um nome sobre-excelente, declara publicamente que toda autoridade foi entregue a Ele nos céus e na terra. Essa exaltação não resulta apenas de um decreto, mas está diretamente ligada à obra redentora plenamente consumada, pois o Cristo que venceu o pecado e a morte agora reina soberanamente sobre toda a criação.

Esse nome acima de todo nome coloca Cristo acima de qualquer poder espiritual, seja do bem ou do mal. Nenhuma autoridade angelical, principado, potestade ou domínio pode se comparar à Sua supremacia. O apóstolo Paulo afirma que todas as coisas foram sujeitas debaixo de Seus pés, demonstrando que o governo de Cristo é absoluto e universal. Essa verdade reforça que não existe força contrária capaz de limitar ou desafiar Sua soberania. Mesmo os poderes das trevas, que atuam no mundo, estão subordinados à autoridade do Filho exaltado.

Por isso, o nome de Jesus carrega poder eficaz porque está unido à Sua pessoa e à Sua obra. Não se trata de uma fórmula religiosa nem de um símbolo vazio, mas de uma autoridade real concedida pelo próprio Deus.

Durante Seu ministério terreno, Jesus demonstrou autoridade sobre doenças, demônios, a natureza e até sobre a morte. Após Sua exaltação, essa autoridade foi confirmada e ampliada, pois Ele passou a governar como Senhor glorificado. Por isso, tudo o que se faz em Seu nome deve refletir submissão à Sua vontade e alinhamento com Sua verdade.

3. Soberania universal e retorno triunfal.

A Escritura revela que todas as criaturas se curvarão diante do nome de Jesus (Fp 2.10). Essa verdade aponta para a plena soberania de Cristo (At 2.36). A confissão universal de que “Jesus Cristo é o Senhor” se dará de duas maneiras: voluntária, por aqueles que creem e servem a Jesus como Salvador (Rm 10.9,10), e, compulsória, por aqueles que o rejeitaram, mas que o reconhecerão em juízo (Rm 14.11; Fp 2.11). Hebreus completa a visão escatológica da soberania de Cristo, afirmando que Ele voltará para levar para si os que o esperam (Hb 9.28). Essa vinda será em glória, poder e juízo (Mt 24.30). Sua glória será reconhecida por todos — para salvação ou para condenação. Ele voltará, triunfante, para buscar a sua Igreja e reinar eternamente (Jo 14.2,3; Ap 11.15).

A soberania universal de Cristo afirma que todo o domínio pertence ao Filho exaltado e que nenhum ser criado permanece fora de Sua autoridade.

A declaração de que todo joelho se dobrará diante do nome de Jesus revela que Seu senhorio alcança todas as esferas da existência, tanto no céu quanto na terra e debaixo da terra. Essa verdade confirma que Cristo não reina apenas sobre a Igreja, mas governa sobre toda a criação, visível e invisível. Deus constituiu Jesus como Senhor e Cristo, e esse decreto não depende do reconhecimento humano para ser verdadeiro, pois procede da vontade soberana do Pai.

Essa confissão universal acontecerá de forma distinta entre os homens. Aqueles que, pela fé, reconhecem Jesus como Senhor já se submetem voluntariamente à Sua autoridade, vivendo em obediência e comunhão com Ele. Essa confissão nasce de um coração transformado e resulta em salvação, pois expressa arrependimento e fé genuína. Por outro lado, aqueles que rejeitam a Cristo também confessarão Seu senhorio, porém não por devoção, mas por reconhecimento forçado diante do juízo divino. Nesse momento, toda resistência cessará, e a verdade que foi negada em vida será confirmada diante do trono de Deus.

Além disso, a soberania de Cristo se manifesta de forma plena em Sua promessa de retorno. Aquele que foi exaltado aos céus voltará de maneira visível e gloriosa.

Sua segunda vinda não ocorrerá em humildade, como na primeira, mas em poder e majestade. Ele virá para consumar o plano redentor, recompensar os que O aguardam e estabelecer definitivamente Seu Reino. Essa esperança fortalece a fé da Igreja, pois assegura que a história caminha para um desfecho governado pela justiça e pela fidelidade de Deus.

Portanto, o retorno triunfal de Cristo confirma que Seu reinado é eterno e incontestável. Para os que pertencem a Ele, esse dia será de alegria, salvação e glorificação. Para os que O rejeitaram, será um momento de juízo e reconhecimento tardio de Sua autoridade. 

CONCLUSÃO

A obra do Filho é completa, suficiente e gloriosa – da humilhação à exaltação. Ele se humilhou para nos salvar, ofereceu-se em sacrifício vicário para nos redimir e foi exaltado para governar eternamente. Como Igreja, somos chamados a viver em comunhão com essa verdade, aguardando o retorno do nosso Senhor e Salvador. Vivamos como servos daquEle que nos serviu com sua vida e nos salvou com seu sangue.

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