Conhecer a Palavra

Crer ou Questionar?

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O capítulo 1 do Evangelho de Lucas apresenta dois anúncios sobrenaturais feitos pelo anjo Gabriel: o nascimento de João Batista e o nascimento de Jesus Cristo. Em ambos os casos, as mensagens envolvem concepções milagrosas e promessas decisivas para a história da redenção. Entretanto, as respostas de Zacarias e Maria recebem tratamentos diferentes de Deus. Enquanto Zacarias fica temporariamente mudo, Maria recebe explicações e é honrada como instrumento do cumprimento da promessa divina. A diferença não está simplesmente nas perguntas feitas, mas principalmente na atitude espiritual revelada por cada um, algo que se torna ainda mais evidente quando observamos o texto na língua original.


1. Zacarias: a pergunta que buscava confirmação

Zacarias era sacerdote e homem justo diante de Deus (Lc 1.5,6). Quando o anjo anunciou que Isabel, mesmo em idade avançada, daria à luz João Batista, ele respondeu:

“Como saberei isto? Pois eu já sou velho, e minha mulher avançada em idade.” (Lc 1.18)

No texto grego, a expressão utilizada é “kata ti gnōsomai touto?”, que significa literalmente “Por meio de que saberei isto?” ou “Qual será o sinal para eu ter certeza?”. A pergunta de Zacarias não se concentra no modo do cumprimento, mas na confirmação da promessa. Em outras palavras, ele pede uma prova antes de crer.

Por isso o anjo declara:

“E eis que ficarás mudo… porquanto não creste nas minhas palavras.” (Lc 1.20)

O silêncio imposto a Zacarias funcionou tanto como disciplina quanto como sinal confirmador do que Deus faria.


2. Maria: a pergunta que buscava entendimento

Quando o mesmo anjo anunciou a Maria que ela conceberia Jesus, ela respondeu:

“Como se fará isto, visto que não conheço homem algum?” (Lc 1.34)

No grego, Maria utiliza a expressão “pōs estai touto?”, que significa “De que maneira isso acontecerá?”. Diferentemente de Zacarias, Maria não pede confirmação da promessa; ela crê na palavra do anjo e deseja apenas compreender o modo como ela se cumprirá, já que era virgem.

Sua resposta final demonstra claramente sua fé:

“Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra.” (Lc 1.38)

Maria aceita a promessa antes mesmo de compreender todos os detalhes, revelando submissão total à vontade de Deus.


3. O contraste espiritual apresentado por Lucas

Lucas constrói intencionalmente um contraste entre as duas narrativas para ensinar uma importante verdade espiritual.

Zacarias Maria
Sacerdote experiente Jovem simples
Pergunta buscando confirmação Pergunta buscando entendimento
Foco nas limitações humanas Submissão à vontade divina
Recebe disciplina temporária Recebe explicação e honra

Esse contraste mostra que Deus não responde apenas às palavras pronunciadas, mas principalmente à disposição do coração.


4. Responsabilidade espiritual e fé

Zacarias possuía grande conhecimento das Escrituras e conhecia exemplos de nascimentos milagrosos, como Isaque (Gn 18), Sansão (Jz 13) e Samuel (1 Sm 1). Sua incredulidade, portanto, era mais grave porque veio de alguém com maior responsabilidade espiritual. A Bíblia ensina esse princípio:

“A qualquer que muito for dado, muito se lhe pedirá.” (Lc 12.48)

Maria, por sua vez, demonstra humildade e confiança imediata, mostrando que a fé verdadeira não depende de posição religiosa, mas da disposição do coração.


5. Lições espirituais para a vida cristã

O episódio ensina princípios importantes:

  1. Deus permite perguntas que nascem da fé, mas reprova a incredulidade que exige provas.
  2. Quanto maior o conhecimento espiritual, maior a responsabilidade diante de Deus.
  3. A fé verdadeira submete-se à vontade de Deus mesmo antes de compreender todos os detalhes.
  4. Deus responde de forma diferente conforme a atitude do coração humano.

Conclusão

O contraste entre Zacarias e Maria revela duas maneiras de reagir à revelação divina: uma marcada pela necessidade de provas e outra caracterizada pela confiança obediente. Ao observarmos cuidadosamente as expressões originais do texto bíblico, percebemos que Zacarias perguntou “como saberei?”, enquanto Maria perguntou “como acontecerá?”. Essa diferença explica por que Deus tratou cada situação de maneira distinta.

Assim, o texto nos convida a responder às promessas divinas não com incredulidade, mas com a mesma atitude de fé expressa por Maria:

“Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra.” (Lc 1.38)

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