TEXTO ÁUREO
“Ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.” (Mt 11.27c).
VERDADE PRÁTICA
Conhecemos a identidade, os atributos e a glória do Deus Pai por meio da revelação de Cristo e da ação do Espírito Santo.
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE
Mateus 11.25-27; João 14.6-11.
Mateus 11
25 — Naquele tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos.
26 — Sim, ó Pai, porque assim te aprouve.
27 — Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.
João 14
6 — Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.
7 — Se vós me conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai; e já desde agora o conheceis e o tendes visto.
8 — Disse-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai, o que nos basta.
9 — Disse-lhe Jesus: Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai?
10 — Não crês tu que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras.
11 — Crede-me que estou no Pai, e o Pai, em mim; crede-me, ao menos, por causa das mesmas obras
INTRODUÇÃO
A doutrina da Trindade é um mistério revelado e central à fé cristã: um só Deus em três Pessoas coeternas, consubstanciais e distintas — o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Dentre essas três Pessoas, estudaremos nesta lição a Identidade, a Revelação e a Pessoa de Deus, o Pai. Aquele de quem procedem o Filho e o Espírito. Ele é a fonte eterna da divindade: Criador, Redentor e Revelador. Por meio da fé, somos convidados a conhecer e nos relacionar com o Pai Celestial.

Palavra-Chave:
PAI
I- A IDENTIDADE DE DEUS, O PAI
1. O Pai é o único Deus verdadeiro.
O Pentateuco declara “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Dt 6.4). Deus, no Antigo Testamento, é um só Deus, que se revela pelos seus nomes, pelos seus atributos e pelos seus atos (Horton, 1997, p.159). O Novo Testamento apresenta o Pai como Deus por excelência, identificado seis vezes com o título de “Deus Pai” (Jo 6.27; 1Co 15.24; Gl 1.1,3; Ef 6.23; 1Pe 1.2). Além dessas ocorrências explícitas, a Bíblia frequentemente se refere a Deus como “Pai”, destacando seu papel como Criador e Sustentador do Universo (Is 63.16; Mt 6.9; Ef 4.6). O próprio Jesus se refere a Deus como “Pai”, e ensina os discípulos a orarem “Pai nosso, que estás nos céus” (Mt 6.9), reforçando a necessidade de um relacionamento pessoal com Deus.
A afirmação de que Deus é um só ocupa um lugar central na revelação bíblica e ganha ainda mais força quando considerada no contexto histórico do Antigo Testamento, marcado por um cenário amplamente politeísta.
As nações ao redor de Israel cultuavam diversos deuses ligados à natureza, à fertilidade, à guerra e ao poder político. Nesse ambiente, a declaração “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Dt 6.4) não funcionava apenas como uma confissão religiosa, mas como uma confrontação direta a todas as demais crenças. O Deus revelado a Israel não era apenas o principal entre outros, nem o mais forte em um panteão de divindades, mas o único Deus verdadeiro, absoluto e soberano sobre toda a criação. Essa verdade preservava o povo da assimilação religiosa e mantinha sua identidade espiritual em meio às pressões culturais e espirituais das nações vizinhas.
Ao longo da história de Israel, a tentação do politeísmo e da idolatria esteve sempre presente.
Repetidas vezes, o povo foi atraído pelos deuses dos cananeus, dos egípcios e de outros povos, o que resultou em graves consequências espirituais e morais. Por isso, a Lei, os Profetas e os Escritos insistem continuamente na unicidade de Deus, reafirmando que só o Senhor criou os céus e a terra, governa a história e sustenta a vida.
Diferente dos ídolos, que têm olhos e não veem, ouvidos e não ouvem, o Deus de Israel age, fala, salva e julga.
Essa distinção não era meramente teórica, mas prática, pois moldava a ética, o culto e a obediência do povo, exigindo fidelidade exclusiva e rejeição a qualquer forma de sincretismo religioso.
No Novo Testamento, essa herança monoteísta não é abandonada, mas aprofundada. O Pai é apresentado como Deus verdadeiro em continuidade direta com a revelação do Antigo Testamento, agora plenamente revelado em seu plano redentor. A pregação apostólica jamais rompe com o monoteísmo judaico, mas o preserva ao mesmo tempo em que revela a obra do Filho e do Espírito Santo. Jesus, ao chamar Deus de Pai e ensinar seus discípulos a orarem dessa forma, não introduz um novo deus, mas revela o coração daquele mesmo Deus único que se manifestou a Israel. Assim, o relacionamento com Deus deixa de ser apenas nacional ou cerimonial e passa a ser pessoal, sem perder a reverência e a santidade.
Portanto, afirmar que o Pai é o único Deus verdadeiro significa reconhecer uma verdade que atravessa toda a Escritura e se mantém firme diante de qualquer sistema religioso concorrente. Em um mundo antigo cercado pelo politeísmo, essa confissão preservou a fé de Israel; em um mundo moderno marcado por relativismo espiritual e múltiplas concepções de divindade, ela continua sendo essencial para a fé cristã.
2. O Pai é a fonte da divindade.
Nossa Declaração de Fé professa que Deus é o Supremo Ser, é Eterno, nunca teve começo, princípio e nunca terá fim (Dt 33.27), pois Ele existe por si mesmo: “como o Pai tem a vida em si mesmo, assim deu também ao Filho ter a vida em si mesmo” (Jo 5.26). Ele é o Deus imutável, desde a eternidade, desde antes da fundação do mundo (Sl 90.2; Ml 3.6; Tg 1.17). El é o Criador do céu e da terra, e de tudo que neles existe (Is 45.18; At 17.24). Ele é o Deus Pai de nosso Senhor Jesus Cristo (Jo 20.31); Ele é Espírito doador e mantenedor de toda a vida (Jó 33.4). O Pai é a Primeira Pessoa divina da Santíssima Trindade, portanto, Ele é a origem e fonte eterna da divindade, de quem o Filho é gerado e de quem o Espírito procede (Jo 15.26; Hb 1.1-3).
A Declaração de Fé das Assembleias de Deus afirma que o Pai é a fonte da divindade, e essa confissão está firmemente alicerçada na revelação bíblica.
Ao declarar que Deus é o Supremo Ser, eterno e autoexistente, a Igreja reconhece que Ele não depende de nada fora de si para existir. Diferente dos deuses das nações pagãs, que surgiam ligados a forças da natureza ou à imaginação humana, o Deus revelado nas Escrituras existe por si mesmo, sem começo e sem fim. Moisés já proclamava que Ele é o “Deus eterno” e que debaixo de seus braços eternos todas as coisas subsistem (Dt 33.27). Essa eternidade absoluta coloca o Pai acima do tempo, da criação e de qualquer limitação própria das criaturas.
Essa autoexistência divina também é expressa no ensino de Jesus ao afirmar que o Pai tem a vida em si mesmo e, da mesma forma, concedeu ao Filho ter vida em si mesmo (Jo 5.26). Essa declaração é fundamental para compreender a relação entre o Pai e o Filho. O Pai não cria o Filho como uma criatura, mas comunica a Ele a mesma vida divina que possui eternamente. Assim, a fonte da divindade permanece no Pai, sem que isso diminua a plena divindade do Filho. O mesmo princípio se aplica ao Espírito Santo, que procede do Pai, conforme o próprio Cristo ensinou, revelando uma ordem eterna dentro da Trindade, sem hierarquia de valor ou inferioridade de essência.
A imutabilidade do Pai reforça ainda mais essa verdade. Desde antes da fundação do mundo, Deus permanece o mesmo, sem variação ou sombra de mudança (Sl 90.2; Ml 3.6; Tg 1.17).
Em contraste com as divindades instáveis do politeísmo antigo, sujeitas a caprichos e transformações, o Deus Pai se revela constante em seu caráter, fiel em suas promessas e perfeito em sua santidade. Essa estabilidade garante segurança à fé cristã, pois o plano da salvação não depende de circunstâncias passageiras, mas da vontade eterna de Deus.
Além disso, a Escritura apresenta o Pai como Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis. Ele não apenas trouxe o universo à existência, como também o sustenta continuamente. Paulo afirma que Deus fez o mundo e tudo o que nele há e que não habita em templos feitos por mãos humanas, pois é Ele quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas (At 17.24,25). Essa verdade se harmoniza com o testemunho de Jó, ao reconhecer que o Espírito de Deus o criou e que o sopro do Todo-Poderoso lhe deu vida (Jó 33.4), mostrando a atuação conjunta das Pessoas divinas, tendo o Pai como fonte.
3. O Pai age por meio do Filho e do Espírito.
A paternidade é o papel da primeira Pessoa da Trindade. Assim, o Pai opera por meio do Filho e por meio do Espírito Santo (1Co 12.4-6; Ef 4.4-6). Isso não implica inferioridade, mas expressa a maneira como as três Pessoas operam inseparavelmente, cada uma conforme sua distinção pessoal. O Pai proclamou as palavras criadoras (Sl 33.9), e o Filho as executou (Jo 1.3). O Pai planejou a redenção (Tt 1.2), e o Filho as realizou (Jo 17.4). Quando o Filho retornou ao céu, o Espírito Santo foi enviado pelo Pai e pelo Filho para ser o Consolador e Ensinador (Jo 14.26). Conforme o Credo de Atanásio (Séc. V): “nenhuma das três pessoas é antes ou depois da outra; nenhuma é maior ou menor do que outra. Mas as três pessoas são coeternas e coiguais”.
A bíblia apresenta o Pai como aquele que age de maneira soberana por meio do Filho e do Espírito Santo, preservando tanto a unidade divina quanto a distinção pessoal na Trindade.
Esse agir não ocorre de forma independente, mas de modo harmonioso e inseparável, conforme a própria Escritura ensina ao afirmar que há diversidade de operações, mas o mesmo Deus que opera tudo em todos (1Co 12.4-6). Assim, o Pai exerce seu papel paternal como origem do plano divino, enquanto o Filho e o Espírito atuam na execução e aplicação desse propósito eterno, sem que isso implique qualquer tipo de inferioridade entre as Pessoas divinas.
Desde a criação, essa ordem se manifesta claramente. O Pai, como fonte da vontade divina, expressou seu poder criador por meio de sua palavra, chamando à existência tudo o que não existia. O salmista declara que Deus falou, e tudo se fez (Sl 33.9), enquanto João esclarece que todas as coisas foram feitas por intermédio do Verbo, e sem Ele nada do que foi feito se fez (Jo 1.3). Dessa forma, a criação não resulta da ação isolada de uma Pessoa, mas do agir conjunto da Trindade, com o Pai como origem, o Filho como agente e o Espírito como aquele que dá vida e sustenta a obra criada.
O mesmo padrão se repete no plano da redenção. Antes da fundação do mundo, o Pai planejou a salvação, estabelecendo seu propósito eterno em Cristo.
Esse plano não permaneceu apenas no âmbito da vontade divina, pois o Filho veio ao mundo para cumpri-lo de forma concreta, realizando plenamente a obra que o Pai lhe confiou (Jo 17.4). Assim, a cruz não representa uma ação isolada do Filho, mas a expressão do amor do Pai que enviou o Filho para salvar a humanidade. Após a ascensão de Cristo, o Espírito Santo foi enviado para aplicar essa redenção ao coração dos crentes, convencendo, ensinando e guiando na verdade, conforme a promessa do próprio Jesus (Jo 14.26).
Portanto, as três Pessoas operam juntas, em perfeita unidade, cada uma segundo sua distinção pessoal, sem divisão de essência ou desigualdade de natureza. Essa compreensão foi cuidadosamente preservada pela Igreja ao longo dos séculos, como expressa o Credo de Atanásio, ao afirmar que nenhuma Pessoa é antes ou depois, maior ou menor, mas todas são coeternas e coiguais.
II.O PAI REVELADO EM CRISTO
1. O Pai se revela aos humildes.
Jesus exalta ao Pai acerca de uma profunda verdade espiritual: “…ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos, e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11.25). Os primeiros, intitulados sábios (gr. sophós) são aqueles que detêm “inteligência e educação acima da média”. Os outros, os instruídos (gr. synetós), são as pessoas com “cultura e instrução”. Esses vocábulos caracterizam os fariseus e os escribas, que se vangloriavam de sua formação privilegiada, mas que padeciam de cegueira espiritual. Significa que os mistérios do Reino de Deus não são revelados aos soberbos, aos que se consideram sábios aos próprios olhos (Pv 3.7). O Pai se dá a conhecer aos “pequeninos” (gr. népios), àqueles que possuem a humildade das crianças (Mt 18.2-4).
A revelação de Deus nunca esteve condicionada ao acúmulo de conhecimento humano, à posição social ou à saber religiosa, mas à disposição interior do coração.
Jesus deixa isso evidente ao exaltar o Pai por ocultar as verdades do Reino aos sábios e instruídos segundo os padrões humanos e revelá-las aos pequeninos. No contexto do ministério de Cristo, os chamados sábios e entendidos representavam especialmente os fariseus e escribas, homens profundamente familiarizados com a Lei, com tradição académica respeitada e reconhecimento público. Contudo, apesar desse capital intelectual e religioso, resistiam à revelação divina porque se julgavam autossuficientes e seguros em sua própria justiça.

Essa postura não era apenas uma falha intelectual, mas um problema espiritual. A soberba fecha o entendimento e endurece o coração, tornando a pessoa incapaz de perceber a ação graciosa de Deus.
Por isso, as Escrituras alertam que aquele que se considera sábio aos seus próprios olhos afasta-se do verdadeiro temor do Senhor (Pv 3.7). O conhecimento, quando separado da humildade, não conduz à comunhão com Deus, mas pode produzir cegueira espiritual. Paulo mais tarde reafirma essa verdade ao ensinar que Deus escolheu as coisas fracas e desprezadas aos olhos do mundo para confundir as fortes, a fim de que ninguém se glorie diante dEle (1Co 1.26-29).
Em contraste, os pequeninos mencionados por Jesus não se referem à imaturidade intelectual, mas à atitude humilde e dependente diante de Deus.
O termo empregado aponta para aqueles que reconhecem suas limitações e se colocam em completa dependência do Pai. Essa humildade abre espaço para a revelação divina, pois quem se sabe pequeno reconhece sua necessidade de aprender, ouvir e obedecer. Por isso, Jesus ensinou que somente aqueles que se tornam como crianças podem entrar no Reino dos céus, destacando não a ingenuidade, mas a confiança, a simplicidade e a submissão próprias de um coração quebrantado.
Dessa forma, o Pai se revela não por mérito humano, mas por graça. Ele se dá a conhecer àqueles que se aproximam com temor, reverência e humildade sincera.
2. O Pai se faz conhecer pelo Filho.
Cristo afirma que o conhecimento do Pai é mediado exclusivamente por Ele. A intimidade entre o Pai e o Filho é absoluta e perfeita: “ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11.27). Essa declaração revela dois princípios importantes: (1) o Pai é um ser pessoal e relacional (Sl 46.10; Is 46.9); e, (2) só é possível conhecer a Deus por meio do Filho, o único mediador entre Deus e os homens (Jo 14.6; 1Tm 2.5). O Filho é o intérprete supremo do Pai, o único capaz de revelar sua natureza, vontade e amor (Jo 1.18; Hb 1.1). Sem Cristo, qualquer tentativa de conhecer o Pai será incompleta ou distorcida, e fadada ao erro e a idolatria (Jo 10.30; Cl 1.15; 2.8,9).
O conhecimento verdadeiro de Deus nasce da revelação que o próprio Pai concede por meio do Filho. Jesus afirma com clareza que existe uma relação única, absoluta e perfeita entre Ele e o Pai, uma comunhão que nenhum ser criado pode alcançar por si mesmo.
Ao declarar que ninguém conhece o Pai senão o Filho e aqueles a quem o Filho o quiser revelar, Cristo estabelece que o acesso ao Pai depende exclusivamente dessa mediação divina. Isso demonstra que Deus é Ser pessoal que escolhe se dar a conhecer de forma relacional e graciosa.
Ao longo da história, muitos tentaram definir Deus a partir da razão, da filosofia ou da cultura, resultando em imagens incompletas ou equivocadas da divindade. Contudo, a Escritura ensina que o Filho é a expressão perfeita do Pai, pois Ele compartilha da mesma essência divina e manifesta de maneira visível aquilo que o Pai é em sua natureza. Ao ver o Filho, o ser humano tem diante de si a revelação fiel do caráter, da vontade e do amor do Pai, sem distorções ou omissões.
Além disso, a mediação de Cristo não é apenas revelacional, mas também redentora. O pecado rompeu a comunhão entre Deus e a humanidade, tornando impossível ao ser humano conhecer plenamente o Pai por seus próprios esforços. Por isso, Cristo se apresenta como o único caminho que reconduz o homem a Deus, não apenas ensinando sobre o Pai, mas reconciliando o pecador com Ele.
3. Quem vê o Filho vê o Pai.
No diálogo com Filipe, Jesus revela outra verdade sublime: “quem me vê a mim vê o Pai” (Jo 14.9). Essa declaração ratifica à doutrina da unidade da Trindade. Jesus é a perfeita expressão do Pai: “O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa” (Hb 1.3). A unidade entre Pai e Filho é essencial e inseparável: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10.30). Não significa que são a mesma Pessoa, mas que compartilham a mesma natureza divina. A obra, as palavras e o caráter de Jesus são expressão direta da ação do Pai (Jo 14.10,11), que opera por meio do Filho, e o Filho age em total comunhão com o Pai (Jo 4.34; 5.30; 6.38-40; 8.28,29). Conhecer Jesus é desfrutar da presença do Pai (Jo 14.21,23).
A afirmação de Jesus a Filipe — “quem me vê a mim vê o Pai” — não fala em termos simbólicos ou meramente representativos : Ele revela o Pai de forma plena e perfeita.
Enquanto os discípulos ainda lutavam para compreender a relação entre o Pai e o Filho, Jesus mostrou que não há distância entre o caráter do Pai e o que se revela em sua vida, palavras e obras. Tudo o que Ele faz e ensina reflete fielmente a vontade do Pai, pois age em plena comunhão com Aquele que o enviou.
Essa revelação confirma a unidade essencial da Trindade. Quando Jesus declara que Ele e o Pai são um, não está anulando a distinção pessoal entre ambos, mas afirmando que compartilham a mesma essência divina. O Pai não é mais Deus do que o Filho, nem o Filho é uma revelação parcial ou inferior. Pelo contrário, o Filho é apresentado como o resplendor da glória divina e a expressão exata do ser do Pai, tornando visível o Deus invisível. Assim, tudo aquilo que o ser humano pode conhecer legitimamente sobre Deus encontra em Cristo sua manifestação mais clara e definitiva.
Ao longo do Evangelho, essa unidade se evidencia na obediência perfeita do Filho. Jesus viveu para cumprir a vontade do Pai, não buscando sua própria agenda, mas realizando o propósito eterno que lhe foi confiado.
Suas palavras não procedem de iniciativa humana, e suas obras não são demonstrações isoladas de poder, mas sinais de que o Pai age por meio dEle. Dessa forma, o ministério de Jesus revela um Deus que não permanece distante, mas que se aproxima, fala, age e salva. O amor demonstrado por Cristo, sua compaixão pelos pecadores, sua justiça e sua santidade refletem exatamente quem o Pai é.
III. A PESSOA DE DEUS PAI
1. Atributos incomunicáveis do Pai.
São qualidades exclusivas da divindade. Elas pertencem apenas ao Deus Pai (bem como ao Filho e ao Espírito), e não podem ser compartilhadas pelo ser humano. Os principais atributos são: Autoexistência, Deus existe por si mesmo, não depende de nada para existir (Êx 3.14; Jo 5.26); Eternidade, Deus não tem começo nem fim, não está limitado pelo tempo (Sl 90.2; Is 57.15); Imutabilidade, Deus não muda, Ele é sempre o mesmo (Ml 3.6; Tg 1.17); Onipotência, Deus é Todo-Poderoso e nada pode frustrar seus desígnios (Jó 42.2; Lc 1.37); Onisciência, Deus conhece perfeitamente o passado, o presente e o futuro (Sl 139.1-6; Hb 4.13); Onipresença, Deus está, ao mesmo tempo, presente em todos os lugares (Sl 139.7-10; Jr 23.24). Estes atributos, portanto, revelam que nosso Deus é absoluto e sem limitação alguma.
A bíblia apresenta Deus como um Ser absolutamente distinto de tudo o que foi criado, e essa distinção se manifesta de maneira clara por meio de seus atributos incomunicáveis.
Essas qualidades pertencem exclusivamente à divindade e não podem ser compartilhadas com o ser humano ou com qualquer criatura. Ao tratar desses atributos, a Escritura não busca satisfazer mera curiosidade teológica, mas conduzir o crente a uma compreensão mais elevada de quem Deus é. Quando reconhecemos essas características, percebemos que o Pai não está sujeito às limitações que marcam a existência humana.
Deus se revela como aquele que existe por si mesmo. Sua existência não depende de causas externas, de energia, de tempo ou de qualquer outra realidade criada. Ele simplesmente é. Ao se revelar a Moisés como “EU SOU”, o Senhor afirmou sua autoexistência e independência absoluta. Diferente de tudo o que vive e precisa ser sustentado, Deus é a fonte de toda a vida. Essa verdade também se reflete no ensino de Jesus ao afirmar que o Pai tem a vida em si mesmo, o que ressalta que toda existência criada deriva dEle, e não o contrário.
Além disso, Deus é eterno. Ele não teve começo e jamais terá fim. Enquanto tudo o que existe foi criado dentro do tempo, o Pai está acima dele e não sofre suas limitações.
O salmista declara que, antes que os montes nascessem ou que a terra fosse formada, Deus já era Deus. Isso significa que Ele não envelhece, não se desgasta e não é surpreendido pela história. Sua eternidade garante que suas promessas permanecem firmes e que seu plano redentor não sofre interrupções ou revisões inesperadas.
Outro atributo fundamental é a imutabilidade divina. Deus não muda em seu ser, em seu caráter ou em seus propósitos. Diferente do ser humano, que oscila em decisões, sentimentos e valores, o Pai permanece o mesmo em todas as gerações. Essa verdade traz segurança ao povo de Deus, pois assegura que o amor, a santidade e a fidelidade divinas não variam conforme as circunstâncias. Se Deus pudesse mudar, sua palavra perderia credibilidade e sua aliança seria instável, mas a Escritura afirma que nEle não há mudança nem sombra de variação.
A Bíblia também revela que Deus é onipotente. Todo poder pertence a Ele, e nada pode frustrar seus desígnios.
Isso não significa que Deus faça tudo de forma arbitrária, mas que sua vontade soberana sempre prevalece. Mesmo diante de situações que parecem caóticas aos olhos humanos, o Pai continua no controle absoluto da história. Essa convicção fortalece a fé do crente, especialmente em tempos de crise, pois ensina que nenhuma circunstância escapa ao domínio divino.
Somado a isso, Deus é onisciente. Ele conhece perfeitamente todas as coisas, inclusive os pensamentos e intenções mais profundas do coração humano. Nada lhe é oculto, nada o surpreende e nada precisa ser aprendido com o passar do tempo. Esse conhecimento absoluto não é frio ou distante, mas pessoal e cuidadoso. O mesmo Deus que tudo conhece é aquele que acompanha, guia e disciplina seus filhos com sabedoria perfeita.
Por fim, a onipresença divina revela que Deus não está limitado a um espaço físico. Ele está presente em todos os lugares ao mesmo tempo, sem se dividir ou se fragmentar. Não há local onde o ser humano possa fugir de sua presença, seja para se esconder, seja para buscar auxílio. Essa verdade consola o crente, pois garante que Deus está sempre próximo, atento e acessível.
2. Atributos comunicáveis do Pai.
São qualidades divinas que, de alguma forma, Deus compartilha com suas criaturas, ainda que de maneira limitada. Refletem os aspectos do caráter e da moral de Deus que podem ser vistos, em grau menor, no ser humano criado à sua imagem e semelhança (Gn 1.26,27). Dentre eles, destacam-se: Santidade, Deus é Santo, e chama seus filhos a serem santos em toda maneira de viver (Lv 19.2; 1Pe 1.15,16); Amor, Deus é amor em essência, e podemos amar a Deus e ao próximo como reflexo desse amor (Mt 22.37-39; 1Jo 4.8); Fidelidade, Deus é sempre fiel, e também somos desafiados a ser fiéis (2Tm 2.13; Ap 2.10); Bondade, Deus é bom em todo o tempo, e somos exortados a agir com bondade em nossa conduta diária (Sl 100.5; Gl 5.22).
A Escritura também revela que, além de seus atributos exclusivos, Deus manifesta qualidades do seu caráter que podem ser refletidas em suas criaturas.
Os atributos comunicáveis não tornam o ser humano divino, mas mostram que, criado à imagem de Deus, ele pode refletir, de forma limitada e pela graça, aspectos morais e espirituais do Criador. Assim, a fé cristã não apenas reconhece a transcendência divina, mas conduz o crente a viver de modo coerente com o caráter de Deus.
Entre esses atributos, a santidade ocupa lugar central. Deus é absolutamente santo e separado de tudo o que é pecado, e essa santidade fundamenta seu chamado ao seu povo para uma vida distinta. Quando o Senhor ordena que seus filhos sejam santos, Ele não propõe um ideal inatingível, mas estabelece um padrão de vida moldado por sua própria natureza. Assim, a santidade cristã não nasce de regras humanas, mas do relacionamento com um Deus santo, que transforma o interior e orienta a conduta diária.
Esse chamado reforça que a vida cristã envolve escolhas conscientes, alinhadas com a vontade de Deus em todas as áreas.
O amor também se destaca como um atributo comunicável. Deus não apenas demonstra amor, mas é amor em sua própria essência. Ao revelar esse amor, especialmente na obra redentora, Ele capacita seus filhos a amarem a Ele acima de todas as coisas e ao próximo como expressão concreta da fé. Esse amor não se limita a sentimentos, mas se traduz em atitudes, perdão, serviço e compromisso com o bem do outro. Dessa forma, o amor cristão se torna um testemunho visível do caráter do Pai no mundo.
Outro aspecto importante é a fidelidade divina. Deus permanece fiel mesmo quando o ser humano falha, pois sua fidelidade não depende da resposta humana, mas de seu próprio caráter. Ao conhecer essa fidelidade, o crente é chamado a refletir esse mesmo princípio em sua vida, mantendo firmeza na fé, compromisso com a verdade e perseverança mesmo em tempos de adversidade. A fidelidade, portanto, revela maturidade espiritual e confiança em Deus, especialmente quando as circunstâncias são desfavoráveis.
A bondade de Deus completa esse conjunto de atributos comunicáveis. O Senhor é bom em todo o tempo, e sua bondade se manifesta tanto em seus atos de graça quanto em seu cuidado diário com a criação.
Ao experimentar essa bondade, o cristão é exortado a agir de forma semelhante, demonstrando misericórdia, generosidade e sensibilidade às necessidades do próximo. Essa prática diária da bondade evidencia uma fé viva e coerente com o caráter do Pai.
3. Os nomes que revelam o Pai.
Os nomes de Deus não tratam apenas de sua identificação, mas revelam sua natureza, obras e virtudes (Sl 9.10). O nome Elohim (Gn 1.1), apesar do plural, reafirma o monoteísmo (Dt 6.4) e alude à pluralidade da Trindade (Gn 1.26); El Shadday (Gn 17.1) revela Deus como o Todo-Poderoso (Gn 28.3; 35.11); Adonai (Sl 8.1) e o grego Kyrios (At 2.36) manifestam sua autoridade como Senhor (Is 6.1; Fp 2.11); o tetragrama pessoal YHWH, revelado como “Eu Sou o Que Sou” (Êx 3.14; 6.13), enfatiza a eternidade e a imutabilidade de Deus (Sl 68.4; Ml 3.6). Esses nomes divinos identificam a primeira Pessoa da Trindade, sua soberania, poder e eternidade, aspectos fundamentais da doutrina cristã sobre a grandeza e a majestade de Deus.
Conhecer o nome do Senhor significa conhecer o seu caráter, sua autoridade e suas obras, pois, na mentalidade bíblica, o nome expressa a identidade.
Por isso, o salmista afirma que os que conhecem o nome do Senhor confiam nEle, reconhecendo que essa revelação produz segurança e fé verdadeira. Deus não se apresenta de maneira genérica ou impessoal, mas se dá a conhecer de forma clara e intencional ao longo da história da redenção.
O nome Elohim, logo no início da revelação bíblica, destaca o poder criador de Deus e sua soberania absoluta sobre todas as coisas. Embora esteja na forma plural, ele não contradiz o monoteísmo, pois o próprio texto sagrado deixa evidente que há um único Deus verdadeiro. Essa forma plural, associada a verbos no singular, aponta para a riqueza interna da divindade, antecipando a revelação plena da Trindade sem comprometer a unidade de Deus. Assim, o Pai se revela como Criador supremo, distinto de tudo o que foi feito e acima de qualquer divindade imaginada pelas nações pagãs.
Outro nome significativo é El Shadday, que apresenta Deus como o Todo-Poderoso, suficiente em si mesmo e plenamente capaz de cumprir suas promessas.
Ao revelar-se dessa forma, o Pai mostra que seu poder não encontra limites nas circunstâncias humanas. Ele sustenta, multiplica, protege e cumpre aquilo que promete, independentemente das limitações humanas. Essa revelação fortalece a confiança do povo de Deus, pois a fidelidade divina não depende da força humana, mas do poder daquele que governa todas as coisas.
Os nomes Adonai e Kyrios, por sua vez, enfatizam a autoridade e o senhorio de Deus. Ao ser reconhecido como Senhor, o Pai se apresenta como aquele que governa com justiça e exige obediência. Esse senhorio não é opressor, mas santo e legítimo, pois procede de sua posição como Criador e Sustentador. No Novo Testamento, esse mesmo título é aplicado a Cristo, demonstrando a unidade do agir divino e a comunhão perfeita entre o Pai e o Filho, sem que isso dilua a identidade pessoal de cada um.
De maneira ainda mais profunda, o nome revelado como “Eu Sou” expressa a autoexistência, a eternidade e a imutabilidade de Deus.
Ao declarar-se dessa forma, o Senhor afirma que não está condicionado ao tempo, às circunstâncias nem às mudanças próprias do mundo criado; antes, Ele simplesmente é. Assim, esse nome pessoal revela um Deus que permanece o mesmo em todas as gerações, fiel às Suas promessas e constante em Seu caráter. Além disso, diferente dos deuses fabricados pela imaginação humana, o Pai se apresenta como Aquele que sempre foi e sempre será.
CONCLUSÃO
A doutrina Bíblica da Santíssima Trindade é a revelação concreta da vida divina compartilhada entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Nesta lição, vimos que Deus, o Pai, é o Deus verdadeiro, eterno e soberano, revelado plenamente em Cristo. Ele é o autor da criação, o planejador da redenção e o sustentador da vida. Conhecer o Pai por meio do Filho é a essência da vida eterna (Jo 17.3). Que essa verdade desperte em nós o desejo sincero de conhecer, amar e obedecer ao Pai que, em Cristo, nos adotou como filhos (Jo 1.12; Rm 8.15).

