Conhecer a Palavra

Lição 6: O Filho como o Verbo de Deus

Subsidio Lição 6 O filho como o verbo de Deus.
TEXTO ÁUREO

E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.(Jo 1.14).

VERDADE PRÁTICA

Jesus Cristo, o Verbo eterno, é a revelação plena e visível de Deus ao mundo, manifestando graça, verdade e a glória do Pai.

 

LEITURA BÍBLICA EM CLASSE

João 1.1-5,14.

1 — No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.

2 — Ele estava no princípio com Deus.

3 — Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.

4 — Nele, estava a vida e a vida era a luz dos homens;

5 — e a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.

14 — E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.

 

INTRODUÇÃO

O prólogo do Evangelho de João apresenta o Verbo eterno como Deus, Criador e Revelador. Ele se fez carne e revelou de forma plena e completa a glória do Pai. O apóstolo João afirma que viu a glória do Deus Unigênito, cheia de graça e de verdade. Nesta lição, veremos que essa revelação marca o clímax da encarnação do Verbo — o Filho de Deus — onde o invisível se tornou visível, o eterno entrou no tempo e o insondável foi manifestado em Cristo Jesus.

Palavra-Chave:

VERBO

I. O VERBO COMO DEUS ETERNO

1. O Verbo preexistente.

O prólogo de João (dezoito versículos iniciais) é chamado de “Hino Logos”. Na abertura: “No princípio, era o Verbo” (Jo 1.1a), as palavras “no princípio” lembram o texto introdutório da Bíblia (Gn 1.1) e claramente ensinam que o Verbo sempre existiu. Esta é uma maneira de referir-se ao atributo da Eternidade que só Deus possui. A expressão “Verbo” (gr. lógos) designa Deus, referindo-se à divindade do Filho. Enquanto os gregos pensavam em um princípio impessoal e os gnósticos num ser intermediário, João apresenta o Logos como o próprio Deus Eterno — Jesus Cristo, o Filho Unigênito do Pai (Jo 1.14; 3.16). Antes de tudo o que existe, o Verbo já existia. Jesus não começou a existir em Belém, pois Ele é Eterno, coexistente com o Pai desde o princípio (Cl 1.17).

O Verbo preexistente é apresentado pelo evangelista João de forma clara e acessível logo na abertura do seu Evangelho, conhecido como o “Hino do Logos”.

Ao afirmar que “no princípio, era o Verbo” (Jo 1.1a), João remete intencionalmente o leitor ao início da Escritura, quando a Bíblia declara que “no princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). Essa ligação ensina que, antes de qualquer ato da criação, o Verbo já existia. Assim, João afirma o atributo da eternidade, que pertence exclusivamente a Deus, deixando claro que Jesus não teve começo e não faz parte da criação.

A expressão “Verbo”, traduzida do grego lógos, não descreve um ser criado ou um princípio abstrato, mas o próprio Deus que se revela. João escreve para corrigir ideias equivocadas do seu tempo. Enquanto os filósofos gregos falavam de um princípio impessoal que organizava o universo e os gnósticos defendiam a existência de seres intermediários entre Deus e o mundo, o apóstolo apresenta o Logos como uma pessoa divina, viva e eterna. Esse Logos não é apenas um mensageiro de Deus, mas o próprio Deus, que se revela plenamente em Jesus Cristo.

Além disso, João esclarece que esse Verbo eterno se manifestou de forma visível na história.

O mesmo Logos que existia desde o princípio se fez carne e habitou entre nós (Jo 1.14), revelando a glória do Filho unigênito do Pai. Isso mostra que Jesus não começou a existir em Belém, mas assumiu a natureza humana naquele momento. A encarnação não marca o início da existência do Filho, mas o início de sua manifestação visível entre os homens para cumprir o plano da redenção.

O apóstolo Paulo reforça essa verdade ao afirmar que Cristo existe antes de todas as coisas e que tudo subsiste por Ele (Cl 1.17). Essa declaração confirma que Jesus é eterno, coexistente com o Pai e sustentador da criação. Portanto, o ensino sobre o Verbo preexistente ajuda os alunos a compreenderem que Jesus não é apenas uma figura histórica ou um grande mestre, mas o Deus eterno que entrou na história para salvar a humanidade. 

2. O Verbo como pessoa distinta.

No texto bíblico, João afirma que “o Verbo estava com Deus” (Jo 1.1b). A expressão grega pros ton Theon (com Deus) comunica relacionamento face a face, ou seja, comunhão pessoal e eterna entre o Verbo (Filho) e Deus (Pai). Indica uma distinção de Pessoas dentro da unidade da Trindade (Dt 6.4; 1Jo 5.7). O Pai, o Filho e o Espírito Santo não são formas sucessivas de aparecimento de uma Pessoa, mas são Pessoas coexistentes desde “o princípio” (Jo 1.2; 17.5).

O Verbo como pessoa distinta é apresentado por João de maneira simples e profunda ao afirmar que “o Verbo estava com Deus” (Jo 1.1b). A expressão grega pros ton Theon indica uma relação pessoal, contínua e íntima, transmitindo a ideia de comunhão face a face. João ensina, assim, que o Verbo não existe de forma isolada nem impessoal, mas em relacionamento eterno com o Pai. Essa declaração elimina qualquer noção de que o Filho seja uma extensão impessoal de Deus ou uma manifestação temporária, pois revela convivência, diálogo e comunhão desde a eternidade.

Essa verdade aponta diretamente para a distinção de Pessoas dentro da unidade divina. A Escritura afirma que Deus é um (Dt 6.4), porém essa unidade não exclui a pluralidade de Pessoas.

O Pai, o Filho e o Espírito Santo compartilham da mesma essência divina, mas se distinguem pessoalmente. João confirma essa realidade ao afirmar que o Verbo estava com Deus no princípio (Jo 1.2), o que pressupõe distinção sem separação. O próprio Jesus reforça essa verdade ao declarar que o Pai o amava antes da fundação do mundo (Jo 17.5), evidenciando um relacionamento pessoal anterior à criação.

Além disso, o testemunho bíblico mostra que essa distinção pessoal se manifesta claramente na história da redenção. No batismo de Jesus, o Filho está nas águas, o Pai fala dos céus e o Espírito Santo desce em forma corpórea como pomba (Mt 3.16,17). Esse episódio confirma que não se trata de uma única Pessoa se manifestando de formas diferentes, mas de Pessoas distintas atuando simultaneamente. Da mesma forma, a Escritura apresenta o testemunho do Pai, do Verbo e do Espírito Santo em perfeita unidade (1 Jo 5.7), reforçando a doutrina trinitária.

Portanto, ao afirmar que o Verbo estava com Deus, João ensina que Jesus é uma Pessoa divina distinta do Pai, mas plenamente unida a Ele em essência e propósito. Essa verdade ajuda os alunos a compreenderem que a Trindade não é uma contradição, mas a revelação bíblica de um Deus único que existe eternamente em comunhão perfeita. 

3. O Verbo é da mesma essência do Pai.

Ainda no versículo de abertura, João revela “o Verbo era Deus” (Jo 1.1c). Aqui, a palavra grega para Deus (Theós) aparece sem o artigo definido — fato que tem gerado discussões exegéticas. Porém, na estrutura grega, a ausência do artigo não implica indefinição ou inferioridade. Essa construção enfatiza a qualidade ou a natureza do sujeito. A omissão do artigo não significa “um deus”, como sustentam traduções heréticas, mas é um indicativo da natureza do Verbo. Esclarece que o Verbo compartilha da mesma essência divina (Jo 10.30; 14.9). Desse modo, o Verbo é como o Pai: eterno (Jo 1.2) e criador (Jo 1.3). Portanto, a expressão “o Verbo era Deus” ensina que Jesus é da “mesma substância” do Pai, isto é, Deus em sua totalidade (Cl 1.15; 2.9).

A afirmação “o Verbo era Deus” (Jo 1.1c) estabelece de forma direta e definitiva a plena divindade do Filho.

João encerra o versículo inicial do seu Evangelho declarando que o Verbo não apenas estava com Deus, mas era Deus em sua própria natureza. Embora a palavra grega Theós apareça sem o artigo definido, essa construção não indica inferioridade nem indefinição. Pelo contrário, no grego do Novo Testamento, a ausência do artigo enfatiza a qualidade e a essência do sujeito, deixando claro que o Verbo possui a mesma natureza divina do Pai.

Essa estrutura gramatical evita dois erros comuns. Primeiro, impede a ideia de que o Verbo seja um segundo Deus separado do Pai. Segundo, rejeita completamente a interpretação equivocada de que Jesus seria “um deus” menor ou criado. João apresenta um único Deus em essência, mas revela uma distinção pessoal dentro dessa unidade. O Verbo é Deus em tudo o que Deus é, compartilhando da mesma substância divina. O próprio Jesus confirma essa verdade ao declarar: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10.30), e ainda ao afirmar que quem o vê, vê o Pai (Jo 14.9).

Além disso, João reforça que essa divindade do Verbo não começou na encarnação, mas existe desde a eternidade.

O Verbo estava com Deus no princípio (Jo 1.2), mostrando que Ele sempre existiu antes de todas as coisas. O mesmo texto afirma que todas as coisas foram feitas por intermédio dEle, e sem Ele nada do que foi feito se fez (Jo 1.3). A criação é uma obra exclusiva de Deus, e o fato de o Verbo ser apresentado como Criador confirma que Ele não pertence à ordem criada, mas ao próprio ser divino.

O apóstolo Paulo reafirma essa verdade ao declarar que Cristo é a imagem do Deus invisível e que nEle subsiste toda a plenitude da divindade (Cl 1.15; 2.9). Essas afirmações mostram que Jesus não possui apenas atributos divinos, mas a totalidade da essência de Deus habita nEle. Não há divisão ou diminuição da divindade no Filho, pois Ele é plenamente Deus em sua natureza, assim como o Pai.

Dessa forma, ao declarar que “o Verbo era Deus”, João ensina de forma acessível e profunda que Jesus Cristo é da mesma essência do Pai. Essa verdade sustenta toda a fé cristã, pois somente um Salvador plenamente divino pode revelar Deus de maneira perfeita e oferecer uma redenção completa. 

II. O VERBO COMO CRIADOR

1. O agente da criação.

A Bíblia declara que “no princípio, criou Deus” (Gn 1.1a). A expressão “criou” traduz a palavra hebraica bārā, termo reservado à atividade criadora de Deus (Gn 1.21,27; 2.4; 5.1,2; 6.7). Afirma que o universo foi criado por Deus a partir do nada — do latim ex nihilo (Hb 11.3). A doutrina de Deus como Criador possui fundamentos tanto no Antigo Testamento (Sl 33.6; Is 45.12; Ne 9.6) quanto no Novo Testamento (At 17.24; Rm 1.20; Ap 4.11). Nesse sentido, João apresenta Jesus também como Criador: “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1.3). Este versículo enfatiza a divindade do Verbo, uma vez que a criação é obra exclusiva de Deus (Cl 1.16,17). Desse modo, o Filho é o agente ativo na criação do universo (Hb 1.2).

Desde as primeiras palavras das Escrituras, a Bíblia afirma de forma clara e absoluta que Deus é o Criador de todas as coisas.

A declaração “no princípio, criou Deus” estabelece que a origem do universo não está no acaso nem em forças impessoais, mas na ação soberana do Senhor. O verbo hebraico bārā, utilizado nesse texto, aparece exclusivamente ligado à atividade criadora de Deus, o que reforça que somente Ele possui poder para trazer à existência aquilo que antes não existia. Assim, a criação não resulta de matéria prévia, mas da palavra divina que chama o ser à existência, conforme ensina Hebreus 11.3, ao afirmar que o visível procede do invisível.

Ao longo de toda a revelação bíblica, essa verdade permanece firme. Os salmos declaram que os céus foram feitos pela palavra do Senhor, e os profetas reafirmam que foi Deus quem formou a terra e criou o homem. No Novo Testamento, essa mesma doutrina continua evidente quando os apóstolos anunciam que o Deus verdadeiro é o Senhor do céu e da terra e que tudo existe para a sua glória. Desse modo, a criação se apresenta como um testemunho permanente do poder, da sabedoria e da majestade divina, tornando Deus conhecido por meio de suas obras.

Entretanto, o Evangelho de João amplia essa compreensão ao revelar que o Filho participa ativamente da obra criadora.

Quando o texto afirma que todas as coisas foram feitas por meio do Verbo, ele não atribui a Jesus um papel secundário, mas confirma sua plena divindade. A criação é uma obra exclusiva de Deus, portanto, ao declarar que nada do que foi feito existe sem o Verbo, a Escritura ensina que o Filho compartilha da mesma natureza e autoridade do Pai. O apóstolo Paulo reforça essa verdade ao afirmar que tudo foi criado por meio dele e para ele, e que nele todas as coisas subsistem.

Dessa forma, o Filho não apenas estava presente na criação, mas atuou como agente ativo por meio do qual o Pai trouxe o universo à existência. Essa revelação fortalece a fé da Igreja ao mostrar que o Cristo que salva também é o Cristo Criador, soberano sobre todas as coisas. 

2. A fonte da vida.

O apóstolo João enfatiza com clareza que “nele, estava a vida” (Jo 1.4a), referindo-se ao Verbo eterno — Jesus Cristo. Esta declaração revela que o Verbo é a fonte absoluta e originária de toda forma de vida, tanto física quanto espiritual e eterna (Jo 3.36; 1Jo 5.11,12). A expressão denota a autossuficiência do Verbo, uma característica específica da divindade (At 17.25). Jesus não depende de nada ou ninguém para viver. Ele compartilha da mesma substância divina: “Porque, como o Pai tem a vida em si mesmo, assim deu também ao Filho ter a vida em si mesmo” (Jo 5.26). Essa verdade afirma que a vida, eterna e imutável, que está no Pai está igualmente no Filho, apontando para a mesma essência dentre as Pessoas da Trindade (Jo 10.30; 14.9; 17.5).

Ao afirmar que “nele estava a vida”, o apóstolo João revela uma verdade central sobre a pessoa de Jesus Cristo: toda vida tem nele a sua origem.

O Verbo eterno não apenas transmite vida, mas é a própria fonte dela. Isso inclui a vida física, que sustenta toda a criação, e, de modo ainda mais profundo, a vida espiritual e eterna concedida aos que creem. Diferentemente das criaturas, cuja existência depende de algo externo, o Filho possui vida em si mesmo. Essa característica aponta diretamente para sua divindade, pois somente Deus é autossuficiente e independente, como as Escrituras ensinam ao declarar que Ele não é servido por mãos humanas como se precisasse de alguma coisa, visto que é Ele quem dá a todos a vida.

Além disso, a vida que procede do Verbo não se limita ao tempo presente, mas alcança a eternidade. O próprio Jesus declarou que quem ouve a sua palavra e crê naquele que o enviou tem a vida eterna e já passou da morte para a vida. Essa afirmação mostra que a vida oferecida por Cristo não é apenas futura, mas uma realidade espiritual que começa no momento da fé. Por essa razão, o apóstolo João também ensina que Deus nos deu a vida eterna, e essa vida está em seu Filho, deixando claro que não existe vida verdadeira fora de Cristo.

Essa verdade se aprofunda quando o Evangelho afirma que, assim como o Pai tem a vida em si mesmo, também concedeu ao Filho ter a vida em si mesmo.

Essa declaração não indica inferioridade, mas igualdade de essência. O Filho participa plenamente da mesma natureza divina do Pai, o que confirma a unidade dentro da Trindade. Por isso, negar que Jesus seja a fonte da vida equivale a negar sua divindade. Ele não é apenas um intermediário, mas o próprio Deus que comunica vida.

Diante disso, fica evidente que toda esperança de salvação e de vida eterna está exclusivamente em Cristo. Ele não apenas criou a vida, mas sustenta e restaura aqueles que estavam espiritualmente mortos.

3. A luz dos homens.

O texto bíblico assevera que “a vida era a luz dos homens; e a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam” (Jo 1.4b,5). A metáfora da Luz simboliza o caráter de Deus, porque nEle não há trevas alguma (1Jo 1.5). Nesse contexto, Jesus é apresentado como a Luz verdadeira (Jo 1.9). Ele não apenas possui luz; Ele é a própria Luz (Jo 8.12). Ele dissipa as trevas, ilumina os perdidos e revela o pecado (Mt 4.16; Jo 3.19). A declaração “as trevas não prevaleceram contra ela” (Jo 1.5 — NAA) mostra que as forças do mal não têm poder sobre Cristo. O verbo grego katalambánō pode ser traduzido como “compreender”, “apoderar” ou “dominar”, e nesse caso expressa que as trevas do pecado não podem resistir à Luz do Filho de Deus (Rm 13.12).

A Escritura apresenta a luz como uma revelação direta do caráter santo de Deus e, consequentemente, como a expressão máxima da vida que procede dEle.

Quando o evangelista afirma que a vida estava em Cristo e que essa vida era a luz dos homens, ele deixa claro que a existência humana só encontra sentido verdadeiro quando iluminada pela presença do Filho de Deus. Desde o princípio, a luz sempre esteve associada à ação divina, pois foi a primeira ordem criadora registrada: “Haja luz” (Gn 1.3). Assim, João conecta essa realidade criadora à pessoa de Cristo, mostrando que Ele não apenas comunica vida, mas também concede entendimento espiritual ao ser humano.

Enquanto isso, as trevas representam o estado de afastamento de Deus, marcado pelo pecado, pela ignorância espiritual e pela rebelião contra a verdade. O ser humano, sem a luz de Cristo, anda em confusão e tropeça, pois não discerne corretamente a vontade divina. O salmista reconhece essa dependência ao declarar que a Palavra do Senhor é lâmpada para os pés e luz para o caminho (Sl 119.105). Dessa forma, fica evidente que a iluminação espiritual não nasce do esforço humano, mas da revelação que Deus concede por meio de Seu Filho.

Cristo, ao ser apresentado como a Luz verdadeira, revela uma verdade profunda: Ele não reflete uma luz externa, nem recebe brilho de outra fonte.

Pelo contrário, Ele é a própria fonte da luz espiritual que confronta o pecado e chama o homem ao arrependimento. Por isso, onde Cristo se manifesta, as trevas perdem espaço. Ainda que o mundo, dominado pelo pecado, tente resistir a essa luz, ele não consegue apagá-la nem dominá-la. O apóstolo Paulo reforça essa realidade ao afirmar que Deus resplandeceu em nossos corações para iluminação do conhecimento da Sua glória na face de Jesus Cristo (2Co 4.6).

Portanto, a luz de Cristo não apenas expõe o erro, mas oferece redenção e esperança. Ela revela o caminho da salvação e conduz o homem a uma nova vida em Deus. Mesmo em meio à oposição espiritual, a luz continua brilhando, pois o mal não possui poder para vencê-la. 

III. O VERBO COMO REVELAÇÃO DO PAI

1. A encarnação do Verbo.

João também apresenta o Verbo como o supremo meio de autorrevelação do Pai: “o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória” (Jo 1.14a). Esta afirmação marca o ponto culminante da revelação divina: o Verbo se tornou homem sem deixar de ser Deus (Fp 2.6-8). O termo grego eskēnōsen (habitou) significa literalmente “armou sua tenda”. Essa linguagem faz alusão ao Tabernáculo (Êx 25.8,9), onde a presença de Deus habitava no meio do povo de Israel. O corpo de Cristo é assim comparado a esse tabernáculo: nele, a glória de Deus se manifestou visível entre os homens (Cl 2.9). Ele revela a união hipostática das duas naturezas do Filho: divina e humana. Ele é o Emanuel, o Deus conosco (Mt 1.23) — a plena revelação do Pai (Hb 1.1).

A encarnação do Verbo representa o ápice da revelação de Deus à humanidade, pois nela o invisível se tornou visível e o eterno entrou na história humana.

Ao afirmar que o Verbo se fez carne, o apóstolo João declara que o Filho de Deus assumiu plenamente a natureza humana, sem perder em nenhum momento Sua essência divina. Essa verdade confronta qualquer tentativa de reduzir Jesus a um simples mestre moral ou profeta, pois Ele é Deus que se aproximou do homem de forma concreta e pessoal. Assim, a revelação divina deixou de ser apenas comunicada por meio de palavras ou símbolos e passou a ser vivida e contemplada na pessoa de Cristo.

Além disso, quando o texto bíblico afirma que o Verbo “habitou” entre nós, destaca-se a ideia de Deus fazendo morada no meio do Seu povo. A expressão remete diretamente à presença divina no deserto, quando o Senhor habitava no Tabernáculo e guiava Israel. Agora, porém, essa presença não se limita a um lugar ou estrutura, pois ela se manifesta na pessoa de Jesus. Nele, a glória de Deus não está oculta atrás de véus, mas revelada de forma acessível, próxima e graciosa. Por isso, aqueles que conviveram com Cristo puderam contemplar Sua glória, não apenas em sinais e milagres, mas também em Seu caráter santo e em Suas palavras cheias de verdade.

Essa realidade confirma a perfeita união entre as naturezas divina e humana do Filho. Jesus sentiu fome, cansaço e dor, mas também perdoou pecados, acalmou o mar e venceu a morte.

Ele viveu como verdadeiro homem, ao mesmo tempo em que agiu como verdadeiro Deus. Essa união não é confusão nem divisão, mas uma obra soberana de Deus para tornar possível a redenção do homem. Somente alguém plenamente humano poderia representar a humanidade, e somente alguém plenamente divino poderia oferecer um sacrifício perfeito e eterno.

Por isso , ao contemplarmos a encarnação do Verbo, compreendemos que Deus não permaneceu distante do sofrimento humano. Ele se fez presente, caminhou entre os homens e revelou de maneira plena quem é o Pai. Em Cristo, Deus se aproximou, falou, tocou e salvou. .

2. A plenitude da graça e da verdade.

João, testemunha ocular da encarnação do Verbo, declara ser a “glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14b). A palavra “glória” (gr. dóxa) remete ao conceito da shekinah — a presença gloriosa de Deus entre o seu povo (Êx 40.34,35). Porém, enquanto a glória na Antiga Aliança se manifestava parcialmente, em Cristo ela se mostra plenamente (Jo 2.11; 17.1-5). A frase “cheio de graça e de verdade” revela o conteúdo dessa glória. Diferente da Lei dada por Moisés (Jo 1.17a), Cristo encarnou a própria graça salvadora e a verdade eterna. Ele não apenas ensina a verdade — Ele é a verdade (Jo 14.6). E não apenas oferece graça — Ele é a plenitude da graça de Deus, uma provisão contínua que se manifestou salvadora a todos os homens (Tt 2.11).

João afirma que a glória contemplada no Filho é a glória do Unigênito do Pai, o que indica que aquilo que se via em Jesus era a expressão perfeita do próprio Deus. Essa glória não se limitava a manifestações externas, mas se revelava no modo como Cristo se relacionava com as pessoas, perdoava pecadores e anunciava o Reino. Dessa forma, a presença gloriosa de Deus, antes associada ao Tabernáculo e ao Templo, agora se revela de maneira viva e acessível na pessoa do Filho, cumprindo aquilo que o Senhor prometera ao habitar no meio do Seu povo.

Além disso, ao declarar que Cristo é cheio de graça e de verdade, o texto mostra que essas virtudes não aparecem de forma fragmentada ou temporária, mas em plenitude.

A Lei, embora santa e justa, revelou o pecado e expôs a incapacidade humana de alcançar a justiça divina por seus próprios méritos. O apóstolo Paulo afirma que a Lei foi pedagoga para conduzir o homem a Cristo (Gl 3.24), preparando o caminho para uma revelação superior. Em Jesus, porém, a graça não apenas cobre o pecado, mas transforma o pecador, e a verdade não apenas instrui, mas liberta, conforme o próprio Senhor declarou: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8.32).

Cristo encarna essa graça salvadora ao oferecer perdão aos arrependidos e restauração aos que estavam perdidos. Ele não relativiza o pecado, mas o confronta com misericórdia, revelando a justiça divina aliada ao amor. O apóstolo Paulo reforça essa realidade ao afirmar que somos justificados gratuitamente pela graça de Deus, por meio da redenção que há em Cristo Jesus (Rm 3.24). Ao mesmo tempo, a verdade que procede de Cristo revela quem Deus é e qual é a Sua vontade para o homem, pois nEle estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência (Cl 2.3).

Portanto, a plenitude da graça e da verdade em Cristo demonstra que Deus ofereceu uma revelação completa e suficiente para a salvação.

Não se trata de uma graça parcial nem de uma verdade limitada, mas de uma provisão perfeita que alcança o ser humano em sua totalidade. Em Jesus, a graça não se esgota e a verdade não se contradiz, pois ambas fluem da mesma fonte divina. Assim, a Igreja proclama que somente em Cristo o homem encontra perdão, vida nova e o pleno conhecimento de Deus, conforme testifica a Escritura.

3. O revelador do Deus invisível.

No último versículo de seu prólogo, João afirma: “Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, este o fez conhecer” (Jo 1.18). Aqui, o apóstolo enfatiza que Deus é invisível e inacessível (Êx 33.20; 1Tm 6.16). No entanto, o Verbo o revelou de forma plena e perfeita. A expressão “Deus unigênito” (gr. monogenēs theos) significa literalmente “o Deus único gerado”. Refere-se a Cristo — o Filho da mesma substância (gr. homoousios) do Pai. Essa declaração reafirma a eternidade e a plena divindade do Filho. Cristo é a autorrevelação completa do Pai: “Quem me vê a mim vê o Pai” (Jo 14.9).

A afirmação de João de que Deus nunca foi visto por alguém estabelece, de forma clara, a transcendência e a santidade absolutas do Senhor.

Deus é espírito, eterno e inacessível à percepção humana limitada, pois nenhum homem, em sua condição natural, consegue contemplar Sua essência e permanecer vivo. Essa realidade aparece ao longo das Escrituras, quando o próprio Senhor declara a Moisés que o homem não pode ver a Sua face, e também quando o apóstolo Paulo descreve Deus como aquele que habita em luz inacessível. Assim, a revelação divina sempre ocorreu de maneira parcial, por meio de atos, palavras e manifestações controladas da presença de Deus.

Entretanto, essa limitação foi plenamente superada na pessoa de Jesus Cristo. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, tornou Deus conhecido de forma perfeita e definitiva. A expressão utilizada por João indica intimidade eterna e comunhão plena entre o Pai e o Filho, mostrando que Cristo não apenas conhece a Deus, mas participa da Sua própria essência. Por isso, Ele é o único capaz de revelar o Pai sem distorções ou imperfeições. O autor de Hebreus reforça essa verdade ao afirmar que o Filho é o resplendor da glória de Deus e a expressa imagem da Sua pessoa (Hb 1.3), deixando claro que tudo o que Deus é se manifesta em Cristo.

Além disso, a declaração de que Cristo é o Deus unigênito confirma Sua plena divindade e eternidade. Ele não teve início no tempo nem foi criado, mas existe desde sempre em perfeita unidade com o Pai.

Essa verdade confronta qualquer ensino que tente diminuir a natureza divina do Filho. Jesus revelou o Pai não apenas por meio de Suas palavras, mas também por Suas obras, Seu caráter e Sua obediência perfeita. Ao ver Cristo agir com autoridade, misericórdia e santidade, o homem contemplou, de forma concreta, quem Deus realmente é. Por isso, o próprio Senhor afirmou que conhecer a Ele é conhecer o Pai, pois ambos compartilham da mesma essência e vontade.

Cristo é o revelador supremo do Deus invisível. Nele, a distância entre Deus e o homem foi vencida, não por mérito humano, mas pela iniciativa graciosa do Pai em se dar a conhecer. Quem rejeita Cristo permanece na ignorância espiritual, mas quem O recebe passa a conhecer verdadeiramente a Deus. 

CONCLUSÃO

Jesus Cristo é o Deus unigênito que revela o Pai. Nele, a glória, a graça e a verdade de Deus são plenamente manifestas. A encarnação do Verbo não é apenas uma doutrina essencial da fé cristã, mas também um chamado à adoração e proclamação daquEle que é a imagem visível do Deus invisível. O Senhor Jesus é a perfeita revelação do Pai à humanidade. Que cada crente reconheça que conhecer a Cristo é conhecer o próprio Deus, e que proclamar essa verdade é tornar a glória do Pai conhecida no mundo.

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