Lição 9: Uma Igreja que se arrisca | EBD Adulto | 3º Trimestre 2025 | Comentarista : Pastor José Gonçalves
TEXTO ÁUREO
“Mas ele, estando cheio do Espírito Santo e fixando os olhos no céu, viu a glória de Deus e Jesus, que estava à direita de Deus.” (At 7.55).
VERDADE PRÁTICA
A igreja foi capacitada por Deus para enfrentar um mundo que é hostil à sua fé e valores.
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE
INTRODUÇÃO
Na lição de hoje vamos conhecer um pouco mais sobre a vida de Estêvão, um dos sete escolhidos para a diaconia (At 6.1-7). Quando lemos esse texto do Livro de Atos, logo percebemos que estamos diante de uma pessoa extraordinária — de grande fé, cheio do Espírito Santo e de sabedoria. Um autêntico cristão destemido! Estêvão é um modelo para todo cristão e, sem dúvida, serve de modelo para a Igreja do Senhor. Observamos que a perseguição a Estêvão e seu consequente martírio marcam um momento decisivo na história da igreja cristã — quando a igreja sai para fora dos muros de Jerusalém para alcançar o mundo. Estava tendo, portanto, cumprimento das palavras de Jesus de que a Igreja seria testemunha tanto em Jerusalém, Judeia, Samaria e até os confins da terra. Atos 8.1 marca o início daquilo que foi anunciado em Atos 1.8.
Palavra-Chave:
MARTÍRIO
I. ESTÊVÃO E A IGREJA QUE TEM SUA FÉ CONTESTADA
1. Aprendendo com Estêvão.
Com Estêvão, em Atos 6 e 7, aprendemos que a fé cristã sempre será questionada. Ele enfrentou oposição, e todo cristão também enfrentará. A fé será colocada à prova, sem espaço para indecisão. Além disso, Estêvão nos ensina que todo cristão deve saber defender sua fé. Explicar e sustentar as crenças cristãs é uma responsabilidade da Igreja, e cada crente precisa entender no que acredita e como responder a desafios. No entanto, em um mundo que muitas vezes se opõe ao Cristianismo, não basta apenas defender a fé — é preciso estar preparado até mesmo para enfrentar perseguições. Estêvão é um exemplo de coragem, mostrando que tanto o cristão quanto a Igreja devem estar dispostos a permanecer firmes, mesmo que isso signifique perder a liberdade ou até a própria vida.
Estêvão se destaca como um dos maiores exemplos de fidelidade a Cristo, pois sua vida demonstra que o Evangelho não é apenas uma mensagem para ser proclamada, mas também uma verdade a ser vivida com convicção.
Em Atos 6 e 7 vemos um homem cheio do Espírito Santo, sabedoria e fé, que não se intimidou diante das acusações injustas dos líderes religiosos. Ele sabia que a fé cristã seria constantemente questionada e que permanecer firme em Cristo exigiria coragem e determinação. A vida de Estêvão mostra que não existe espaço para a indecisão, pois aquele que deseja seguir a Jesus precisa estar preparado para enfrentar críticas, incompreensões e até perseguições. A Bíblia nos alerta que “todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições” (2 Tm 3.12), confirmando que a oposição não é exceção, mas parte da caminhada cristã.
Além disso, aprendemos com Estêvão que defender a fé é uma responsabilidade pessoal e intransferível. O apóstolo Pedro orienta que cada um deve estar “sempre preparado para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (1 Pe 3.15). Isso significa que o cristão precisa conhecer bem a Palavra de Deus, compreender as verdades do Evangelho e estar pronto para apresentá-las de maneira clara e firme diante de qualquer questionamento. Estêvão não apenas pregava, mas também explicava as Escrituras, demonstrando que seu testemunho estava fundamentado no conhecimento da vontade de Deus.
No entanto, a defesa da fé não se limita às palavras. Estêvão nos ensina que o verdadeiro testemunho está em permanecer fiel até o fim, mesmo diante da hostilidade.
Sua morte como primeiro mártir da Igreja revela que a fé autêntica vai além do desejo de convencer, ela se manifesta na disposição de sofrer por Cristo. Jesus havia dito: “Sereis odiados de todos por causa do meu nome; mas aquele que perseverar até ao fim será salvo” (Mt 10.22). Estêvão perseverou até o último instante, demonstrando que vale mais obedecer a Deus do que agradar aos homens.
2. A fé sob ataque.
Lucas nos conta que, em um momento do ministério de Estêvão, um grupo de judeus que vivia fora de Israel, chamado de judeus helenistas, se levantou contra ele. Esses judeus faziam parte da Diáspora, ou seja, eram pessoas que tinham se espalhado por outras regiões, fora do território de Israel. Eles não concordaram com o que Estêvão estava ensinando e começaram a se opor ao seu trabalho (At 6.9). Esse levante aconteceu logo após Estêvão fazer “prodígios e grandes sinais entre o povo” (At 6.8).
É interessante observar que o verbo grego usado aqui, anistemi, com o sentido de “levantar” é o mesmo verbo usado por Marcos quando disse que houve testemunhas falsas que se levantaram para acusar Jesus (Mc 14.57). Anteriormente, Cristo já fora atacado no seu ministério terreno, agora o ciclo se repetia com seus seguidores. A fé cristã sempre será alvo e objeto de ataque. Se a igreja é verdadeiramente cristã, sempre haverá em algum lugar um levante. Neste episódio, o levante fora motivado por conta da inveja que os religiosos sentiram ao verem suas sinagogas esvaziadas por motivo das pessoas se renderem a um Evangelho de poder. Uma igreja bíblica sempre estará sob ataque e terá sua fé contestada.
A narrativa de Atos 6.9 mostra que a fé cristã nunca se desenvolveu em um ambiente de neutralidade ou aceitação plena, mas sempre em meio a resistências e ataques.
Estêvão, cheio de graça e poder, realizava sinais entre o povo, o que despertou oposição dos judeus helenistas, descendentes da Diáspora. O verbo “levantar”, usado para descrever a reação deles, carrega a mesma ideia da hostilidade dirigida contra Jesus, indicando que o padrão de perseguição sofrido pelo Mestre se repetiria em seus discípulos. Esse detalhe mostra que a fidelidade a Cristo inevitavelmente desperta confrontos, pois a mensagem do Evangelho confronta estruturas religiosas, culturais e sociais que se opõem à verdade. Jesus mesmo advertiu que o servo não é maior do que o seu Senhor e que, se Ele foi perseguido, também seus seguidores seriam (Jo 15.20).
A oposição contra Estêvão não surgiu por acaso. O sucesso do Evangelho despertou inveja, pois muitos estavam abandonando as tradições rígidas para se renderem à mensagem de poder anunciada por ele. Esse movimento revelava que a religiosidade sem vida não podia competir com a obra do Espírito Santo. A partir desse ponto, fica evidente que sempre que a Igreja cumprir fielmente sua missão, haverá reações contrárias. O livro de Atos mostra que os apóstolos foram presos, açoitados e até mortos por causa do testemunho de Cristo. Isso reforça a realidade de que a fé cristã, quando vivida de forma autêntica, desafia os sistemas estabelecidos e gera oposição.
É importante destacar que os ataques à fé não são sinais de derrota, mas de autenticidade.
A Igreja que anuncia a Palavra de Deus sem distorções sempre encontrará resistência, pois o mundo prefere permanecer em trevas a ser confrontado pela luz. O apóstolo João declarou: “E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam” (Jo 1.5). Isso explica por que o Evangelho causa incômodo: ele desmascara o pecado e chama à transformação.
Portanto, ao observar a experiência de Estêvão, entendemos que os ataques à fé não devem nos surpreender. Pelo contrário, eles confirmam que estamos no caminho correto. A inveja dos judeus helenistas não conseguiu apagar o testemunho de Estêvão, assim como nenhuma perseguição pode impedir o avanço do Reino de Deus. Uma igreja bíblica precisa estar consciente de que sua fé será questionada e atacada, mas também confiante de que o Senhor permanece com ela em meio às adversidades, sustentando-a para que continue proclamando a verdade do Evangelho com ousadia.
3. A disputa com Estêvão.
Uma outra palavra usada nesse texto merece nossa atenção. É o vocábulo “suzéteó”, traduzido aqui como “disputavam”: “E disputavam com Estêvão” (At 6.9). Os léxicos, ou dicionários de grego-português, observam que este termo era frequentemente usado no contexto de discussões religiosas ou filosóficas, onde diferentes pontos de vistas estavam sendo examinados ou desafiados. Era uma forma de debater ideias e impor aos outros sua forma de enxergar as coisas. Em outras palavras, os judeus helenistas não estavam simplesmente “discutindo” com Estêvão, isto é, batendo boca, mas procurando, a todo custo, sobrepor sua cosmovisão através de uma narrativa bem construída.
O relato em Atos 6.9 nos mostra que os judeus helenistas não buscavam apenas uma troca de ideias com Estêvão, mas estavam engajados em uma disputa intelectual e espiritual, tentando impor sua visão religiosa e cultural. O termo grego “suzéteó” indica que havia ali um debate organizado, no qual os adversários buscavam convencer e desestabilizar, utilizando argumentos cuidadosamente elaborados. Esse detalhe é importante porque revela que a oposição contra a fé cristã não se limitava à violência física ou perseguição aberta, mas também se manifestava em discussões de alto nível, em que a verdade era confrontada por narrativas bem estruturadas. O objetivo deles não era encontrar a verdade, mas provar que Estêvão estava errado e, assim, manter sua influência diante do povo.
Essa cena nos ensina que a Igreja de Cristo precisa estar preparada não apenas para suportar ataques externos, mas também para responder a questionamentos e disputas que surgem em diferentes contextos.
O apóstolo Paulo orienta a Timóteo a apresentar-se aprovado, como obreiro que maneja bem a Palavra da verdade (2 Tm 2.15). O mesmo Paulo também exortou que as armas da nossa milícia não são carnais, mas poderosas em Deus para destruir fortalezas, anulando sofismas e toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus (2 Co 10.4-5). Isso mostra que o crente deve estar pronto para responder com clareza, mas também consciente de que a batalha é espiritual e que somente o poder do Espírito Santo convence os corações.
O exemplo de Estêvão mostra que, mesmo diante de disputas intelectuais intensas, o cristão não precisa temer. O texto bíblico destaca que seus opositores não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito pelo qual ele falava (At 6.10). Isso significa que sua defesa da fé não se baseava apenas em conhecimento humano, mas estava sustentada pela ação divina em sua vida. A Igreja deve seguir esse mesmo caminho: preparar-se com dedicação no estudo da Palavra, mas sempre depender da direção do Espírito Santo.
4. A falsa narrativa.
A Igreja sempre teve de lidar e combater as falsas narrativas. Nos dias de Jesus, Ele foi acusado de enganar o povo (Jo 7.12); quando Ele ressuscitou, criaram a narrativa de que seu corpo havia sido roubado pelos discípulos (Mt 28.13). O apóstolo Paulo foi acusado de pregar contra os decretos de César (At 17.7) e pelo fato de pregar a respeito de Jesus e da ressurreição, o acusaram de pregar “deuses estranhos” (At 17.18). Hoje não é diferente. A igreja luta em várias frentes com falsas narrativas que a todo custo querem minar o seu testemunho e desacreditá-la. Você pode reconhecer algumas dessas narrativas?
A história bíblica mostra que as falsas narrativas sempre foram utilizadas como instrumentos para tentar enfraquecer a mensagem do Evangelho e confundir aqueles que a ouviam. Jesus foi acusado de enganar o povo e de expulsar demônios pelo poder de Belzebu (Mt 12.24), uma estratégia para desacreditar sua autoridade e desviar a atenção da verdade que Ele pregava. Após a ressurreição, a mentira de que seu corpo havia sido roubado foi espalhada com o objetivo de neutralizar o impacto do maior sinal de sua divindade. O apóstolo Paulo também enfrentou acusações forjadas que buscavam colocá-lo em conflito com as autoridades políticas e religiosas, tentando associar sua mensagem a uma ameaça ao império romano ou a uma heresia perigosa. Esses episódios revelam que a oposição à fé cristã sempre recorreu à distorção dos fatos para impedir o avanço do Reino de Deus.
Nos dias atuais, a Igreja continua enfrentando o mesmo tipo de ataque, ainda que com roupagens diferentes.
Narrativas enganosas tentam apresentar o cristianismo como ultrapassado, contrário ao progresso ou até mesmo como uma religião nociva à sociedade. Em um mundo que valoriza a relativização da verdade, muitos tentam afirmar que a mensagem bíblica não passa de uma opinião entre tantas outras, negando sua autoridade divina. Outros procuram reduzir a fé cristã a uma construção cultural, sem relevância espiritual real, enfraquecendo sua influência na vida das pessoas. Assim como no passado, o objetivo dessas narrativas é desviar a atenção da verdade revelada por Deus e minar o testemunho daqueles que permanecem fiéis.
A Escritura nos adverte a respeito desse tipo de engano. O apóstolo Pedro declarou que haveria falsos mestres introduzindo heresias de perdição (2 Pe 2.1), e Paulo alertou que nos últimos dias muitos não suportariam a sã doutrina, preferindo ouvir aquilo que agrada aos ouvidos (2 Tm 4.3-4). Esses textos mostram que a Igreja não deve se surpreender com as falsas narrativas, mas estar preparada para discerni-las e combatê-las. A defesa da fé exige conhecimento bíblico e dependência do Espírito Santo, pois somente a verdade revelada nas Escrituras é capaz de desmascarar a mentira e libertar o ser humano (Jo 8.32).
II. ESTÊVÃO E A IGREJA QUE DEFENDE SUA FÉ
1. Deus na história do seu povo.
Estêvão é conhecido como o primeiro defensor da fé cristã e o primeiro mártir da Igreja. Ele faz uma defesa apaixonada da fé, usando a própria história do povo de Israel como base. No capítulo 7 do livro de Atos, encontramos seu discurso completo, no qual, guiado pelo Espírito Santo, ele não apenas mostra como Deus sempre agiu na história do seu povo, mas também revela o propósito principal dessa história: provar que Jesus é o Cristo. Durante sua fala, Estêvão menciona grandes nomes como Abraão, José e Moisés, destacando que todos eles viveram na esperança da vinda do Messias, que mesmo sendo tão esperado, acabou rejeitado. A defesa de Estêvão nos ensina que toda explicação e defesa da fé cristã — a chamada apologética — deve sempre ter um objetivo central: apontar para Jesus Cristo.
O discurso de Estêvão em Atos 7 mostra que a história de Israel só se entende em conexão com o plano divino, que se cumpre em Jesus Cristo. Ele não apresenta apenas uma linha do tempo ou exalta heróis da fé, mas evidencia como cada evento e personagem apontam para a promessa messiânica. Abraão, ao obedecer a Deus e deixar sua terra, demonstrou fé que vai além de uma herança terrena, aguardando algo maior (Hb 11.10). José, rejeitado pelos irmãos e exaltado no Egito, simboliza Cristo, também rejeitado e glorificado por Deus. Moisés, libertador de Israel, prenuncia a obra redentora de Jesus, o verdadeiro libertador da humanidade.
Essa leitura da história feita por Estêvão deixa claro que a fé cristã não se fundamenta em ideias novas ou isoladas, mas está enraizada no agir contínuo de Deus ao longo dos séculos.
O propósito principal da narrativa bíblica sempre aponta para Cristo. Esse é o foco da defesa de Estêvão: mostrar que Jesus cumpre todas as promessas feitas ao povo de Israel. Ao destacar que os patriarcas e profetas aguardavam a vinda do Messias, ele confronta os líderes religiosos. A rejeição a Jesus repete o mesmo padrão de resistência à vontade de Deus demonstrado pelos antepassados.
A defesa de Estêvão ensina que toda apologética cristã deve ter Jesus como centro. Argumentar sobre a fé não se resume a rebater críticas ou apresentar respostas racionais. O objetivo principal é mostrar que tudo converge para o Filho de Deus, que morreu e ressuscitou para salvar a humanidade. Paulo resume bem isso em 1 Coríntios: “Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado” (1 Co 2.2).
2. Corações endurecidos.
Concluindo sua defesa da fé, Estêvão disse: “Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim, vós sois como vossos pais” (At 7.51). Mesmo diante dos fatos apresentados por Estêvão em uma defesa suficientemente convincente, seus adversários preferiram ignorar. Na verdade, ninguém convence quem não quer ser convencido. Deus não força ninguém a crer, nem tampouco o condena sem lhe dar, antes, oportunidade. O texto mostra que o Espírito Santo não tem espaço em corações endurecidos.
O discurso de Estêvão termina com uma denúncia direta aos líderes religiosos. Ele os chama de homens de dura cerviz, incircuncisos de coração e de ouvidos, sempre resistindo ao Espírito Santo. Essa declaração revela uma verdade sobre quem rejeita a mensagem de Deus: não falta de provas ou argumentos impede a fé, mas a dureza do coração. Estêvão mostrou, com base na história de Israel e nas Escrituras, que Jesus era o Cristo prometido. Ainda assim, seus ouvintes repetiram o erro de seus antepassados, que rejeitaram os profetas e resistiram à vontade de Deus. Isso confirma que a incredulidade muitas vezes nasce da disposição do coração em não se submeter à verdade, e não da ausência de evidências.
A Bíblia mostra que o endurecimento do coração é um processo perigoso, pois impede o homem de ouvir a voz do Espírito Santo.
Foi assim com o faraó nos dias de Moisés. Mesmo diante de milagres e sinais, ele escolheu resistir e não permitir a ação de Deus (Êx 8.15). O profeta Jeremias também denunciou um povo de ouvidos incircuncisos, incapaz de ouvir, pois a palavra do Senhor lhes era afronta (Jr 6.10). Jesus, por sua vez, criticou os escribas e fariseus por sua hipocrisia. Eles se apegavam às tradições humanas e rejeitavam a verdade de Deus (Mt 23.27-28).
Esse endurecimento não significa que Deus não ofereça oportunidades. Ao contrário, Ele sempre chama, orienta e concede chance para arrependimento. O apóstolo Pedro afirma que o Senhor é longânimo, não querendo que alguns se percam, mas que todos venham a arrepender-se (2 Pe 3.9). No entanto, quando o coração permanece fechado, a pessoa escolhe resistir à ação do Espírito e, consequentemente, se afasta da salvação. É nesse ponto que percebemos que ninguém é convencido à força: crer é uma decisão que envolve fé, humildade e rendição ao chamado divino.
Assim, a declaração de Estêvão continua atual. Muitos ainda hoje preferem ignorar a verdade do Evangelho, resistindo à voz do Espírito Santo. O texto de Atos nos alerta de que não devemos cultivar um coração endurecido, mas sim sensível à Palavra e disposto a obedecer à direção de Deus. O exemplo dos adversários de Estêvão serve de advertência para que não repitamos o mesmo erro. Somente quando permitimos que o Espírito Santo tenha espaço em nossas vidas é que experimentamos a verdadeira transformação e permanecemos firmes na fé.
III. ESTÊVÃO E O MARTÍRIO DA IGREJA
1. Contemplando a vitória da cruz.
Diante de um grupo enfurecido (At 7.54), Estêvão contemplou a glória de Deus: “Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem, que está em pé à mão direita de Deus” (At 7.56). Uma igreja que contempla o Cristo glorificado não nega a sua fé, pois ela contempla a vitória da cruz. Assim como Estêvão, o apóstolo Paulo demonstrou estar pronto, não somente para sofrer pelo nome de Jesus, mas morrer por Ele (At 21.13). Uma igreja que mantém seus olhos no Cristo glorificado não tem nada a temer.
O martírio de Estêvão mostra que a vitória da cruz não é apenas um acontecimento passado, mas uma realidade presente que sustenta a Igreja. Enquanto seus inimigos rangiam os dentes contra ele, Estêvão ergueu os olhos e contemplou algo que só a fé pode ver: o Cristo glorificado, de pé à direita de Deus. Essa visão não surgiu da imaginação ou de um desejo pessoal. Era uma revelação do Espírito Santo, confirmando que a morte de Cristo não foi derrota, mas a consumação do plano de Deus. Ao ver os céus abertos, Estêvão testemunhou que a cruz venceu o pecado, o inferno e a morte, e que Jesus reinava em glória.
Essa perspectiva é o que mantém a Igreja fiel diante das perseguições.
Quando Paulo afirmou estar disposto não apenas a sofrer, mas a morrer por Cristo (At 21.13), ele demonstrava a mesma certeza que Estêvão: a vitória da cruz garante que nenhum sofrimento terreno pode apagar a esperança eterna. Foi essa convicção que fez com que os apóstolos enfrentassem prisões, açoites e a morte sem negar a fé. O autor da carta aos Hebreus também destaca essa realidade ao dizer que Jesus, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e agora está assentado à destra do trono de Deus (Hb 12.2). Isso mostra que o olhar do cristão precisa estar fixo no Cristo glorificado, não nas circunstâncias adversas.
Contemplar a vitória da cruz é entender que a fé não se limita a esta vida, mas aponta para a eternidade. Estêvão morreu apedrejado, mas entrou na presença de Cristo vitorioso. Os seus inimigos julgavam ter vencido, mas a verdadeira vitória estava com ele, porque permaneceu fiel até o fim. Da mesma forma, a Igreja de hoje é chamada a olhar para além das dificuldades, lembrando-se de que “se sofrermos, também com ele reinaremos” (2 Tm 2.12). Isso significa que nenhuma perseguição, crítica ou oposição pode anular a esperança que temos em Cristo.
2. Perdoando o agressor.
A última declaração de Estêvão antes de sua morte é marcante e cheia de significado: “E, pondo-se de joelhos, clamou com grande voz: Senhor, não lhes imputes este pecado. E, tendo dito isto, adormeceu” (At 7.60). Aqui vemos um cristão que não teme a morte porque contempla a coroa da vida (Ap 2.10). Temos aqui a figura de uma igreja que, literalmente, se dá pelo perdido, que se sacrifica por ele. Esse deve ser o modelo a seguir.
O testemunho de Estêvão ao perdoar seus agressores é uma das expressões mais elevadas do cristianismo. Ele revela o coração de alguém totalmente conformado à imagem de Cristo. No momento de maior dor e injustiça, quando pedras feriam seu corpo e a multidão clamava por sua morte, ele não pediu vingança nem desejou o mal. Ao contrário, levantou um clamor intercessor: “Senhor, não lhes imputes este pecado”. Essa atitude ecoa as palavras de Jesus na cruz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23.34). Estêvão não apenas pregava sobre Cristo, mas vivia de forma tão íntima com Ele que reproduzia Seu caráter até o último instante de vida.
Esse perdão evidencia que a vitória do cristão não está em escapar do sofrimento, mas em permanecer fiel ao amor de Deus mesmo diante do ódio humano.
Enquanto os agressores pensavam ter a vitória, Estêvão mostrava que a coroa verdadeira não pertence aos que matam. Ela é dos que, pela fé, permanecem firmes em Cristo. Ele tinha diante de si a certeza da vida eterna, como está escrito: “Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida” (Ap 2.10). Essa convicção o libertava do medo. Também lhe permitia responder ao ódio com amor. Assim, ele revelava que a Igreja de Cristo não foi chamada para revidar o mal com o mal, mas para vencê-lo com o bem (Rm 12.21).
Ao observar esse episódio, percebemos que o perdão não é apenas um ato de bondade, mas um testemunho poderoso do Evangelho. A Igreja, quando perdoa, mostra ao mundo que o amor de Deus é maior do que qualquer injustiça. Foi esse testemunho que impactou Saulo, que presenciou a morte de Estêvão e, mais tarde, encontrou-se com Cristo no caminho de Damasco. Assim, o perdão de Estêvão não foi em vão, mas plantou uma semente que, no tempo de Deus, produziu frutos abundantes.
CONCLUSÃO
Estêvão, um dos sete escolhidos para o trabalho social da primeira igreja, representa o modelo de uma igreja verdadeiramente bíblica. Qualificado, cheio de fé e do Espírito Santo, não teme se posicionar diante de um mundo e de uma cultura contrários. Não teme o sofrimento e nem mesmo a morte na defesa daquilo que acredita e prega. É o modelo de uma igreja, que em vez de ficar no seu conforto, vai até as últimas consequências, arriscando-se pelo seu Senhor.